Domitila, Marquesa de Santos: a paixão proibida de Dom Pedro I no TMRJ
A Sala Mário Tavares, anexo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, recebe nos dias 30 de outubro e 1º de novembro a ópera de câmara Domitila, do consagrado compositor João Guilherme Ripper. Com direção cênica de Isabel Guéron e a soprano Georgia Szpílman no papel-título, o espetáculo promete uma imersão na história de amor proibido entre o Imperador Dom Pedro I e a sua grande paixão, Domitila de Castro, a Marquesa de Santos.
Baseada nas cartas apaixonadas que o imperador escreveu à sua amante, a ópera reconstrói o último dia de Domitila na corte, quando ela é forçada a se despedir do amado. O relacionamento, mantido entre 1822 e 1829, chegou ao fim por imposição da Casa dos Bragança, que determinou ao jovem imperador viúvo o casamento com uma princesa de estirpe real, D. Amélia de Leuchtenberg, em vez da mulher que amava.
Em cena, a cantora Georgia Szpílman interpreta uma Domitila de carne e osso, revisitando as memórias de um amor que começa com a paixão juvenil — o imperador assinava as cartas como “Demonão” e “Fogo Foguinho” — e se desgasta diante das obrigações políticas, até que ele se torna apenas “o Imperador” . A direção de Isabel Guéron conduz a personagem em um limbo espaço-temporal, onde ela arruma as malas e, presa em suas próprias lembranças, revive angústias, alegrias e decepções, em uma atmosfera densa e carregada de emoção.
A história das cartas também é digna de uma ópera. O combinado entre os amantes era de que fossem queimadas assim que lidas. Dom Pedro I cumpriu o acordo, mas Domitila, como se pode dizer, guardou todas as 94 cartas da sua grande paixão. Elas ficaram perdidas por décadas até serem encontradas pelo historiador Paulo Rezzutti na Hispanic Society of America, em Nova York, e hoje estão no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e no Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora.
A montagem, que tem direção musical de Maria Luisa Lundberg e conta com os instrumentistas Nayara Tamarozi (violoncelo) e Moisés Santos (clarinete), é uma oportunidade de ouro para o público carioca entrar em contato com um importante episódio da história brasileira, humanizando uma das suas figuras femininas mais marcantes do século XIX. A ópera, de aproximadamente 60 minutos de duração, foi agraciada com o Prêmio Circuito FUNARTE de Música Clássica 2010 e tem feito sucesso também em Portugal e na Espanha, onde a crítica a descreveu como um espetáculo de “tratamento dramático de muito sucesso”.

Para Georgia Szpílman, Domitila é uma figura essencial na história do nosso país, e a artista enxerga que a mulher hoje ainda não conquistou o papel que lhe cabe na sociedade machista: “Durante sete anos, ela viveu uma relação intensa com Dom Pedro I, teve vários filhos com ele e, após a morte de Dona Leopoldina, passou a residir com o imperador no Solar da Marquesa, local de onde ele despachava os rumos do Brasil. Mas o que mais me impacta nessa trajetória é como ela foi, no fim, descartada. E isso me faz olhar para os dias de hoje e ver que a realidade não mudou: nós, mulheres, continuamos sendo usadas e deixadas de lado quando não convém. Essa não é uma questão do século XIX. É uma questão atual, urgente, viva. É por isso que canto Domitila: para lembrar que a mulher — amante ou não — sempre foi muito mais do que o papel que tentaram lhe dar”, destaca.
SERVIÇO
Domitila
Ópera de Câmara de João Guilherme Ripper
Georgia Szpílman, soprano
Maria Luisa Lundberg, piano
Nayara Tamarozi, violoncelo
Moisés Santos, clarinete
Isabel Guéron, direção cênica
Quando: 30 de outubro, sexta-feira, às 19h / 1º de novembro, domingo, às 11h
Onde: Sala Mário Tavares — anexo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Rua Almirante Barroso, 14/16, Centro)
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) / disponíveis na plataforma Feverup
Classificação: livre
Fotos: Ana Clara Miranda.

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