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“Mary, Queen of Scots” em São Francisco

Mary, Queen of Scots (1977)
Música: Thea Musgrave (nascida em 1928)
Libreto: Thea Musgrave, em inglês, baseado na peça Moray, da escritora peruana Amalia Elguera
Ópera em três atos.
War Memorial Opera House, San Francisco, Califórnia, EUA, 24 de setembro de 2026
Direção musical: Clelia Cafiero
Direção cênica e cenografia: Stewart Laining
Coreografia: Colm Seery
Iluminação: D.M. Wood e Mimi Jordan Sherin
Direção do coro: John Keene
Cardeal Beaton: David Soar, baixo
James Stewart, conde de Moray: Thomas Mole, barítono
Conde de Morton: Olivier Zerouali
Conde de Ruthven: Chance Jonas O’Toole
Mary, rainha da Escócia: Heidi Stober, soprano
James Hepburn, conde de Bothwell: Thomas Kinch, tenor
Mary Beaton: Sofia Gotch, soprano
Mary Seton: Sadie Cheslak, mezzosoprano
Mary Livingston: Mary Hoskins, soprano
Mary Fleming: Alexa Frankian, soprano
Lord Gordon: Philip Skinner, baixo-barítono
Henry, Lord Darnley: Christopher Sokolowski, tenor
David Riccio: Hadleigh Adams
Lords: William Lee Bryan e Michael Jankosky
Membro da multidão: Sally Mouzon
Coro e Orquestra da San Francisco Opera

Com duas semanas de atraso e o cancelamento de quatro récitas e de um concerto, em razão da greve provocada por uma disputa salarial entre o teatro e a orquestra, começou a temporada da Ópera de São Francisco. Felizmente, ambas as partes chegaram a uma solução satisfatória, e a temporada já transcorre com normalidade.

Não é um tema menor falar das dificuldades econômicas pelas quais passa a lírica na América do Norte. Teatros como o de São Francisco (a segunda companhia lírica em importância, por nível e orçamento, nos Estados Unidos, depois do Metropolitan) vêm reduzindo paulatinamente a quantidade de títulos oferecidos a cada temporada: quatro títulos no período de setembro a novembro e dois no período de verão, além de alguns concertos. Mesmo assim, é importante ressaltar a necessidade de o teatro manter uma boa relação com os seus grupos estáveis, que, afinal, são os seus principais ativos e pilares.

Por isso, a segunda récita de Mary, Queen of Scots, a que assisti, foi na prática a estreia do título nesta temporada. A obra da compositora escocesa Thea Musgrave (nascida em 1928) foi encomendada pela Ópera da Escócia e estreou no Festival de Edimburgo em 06 de setembro de 1977. Já havia sido encenada nesta cidade, embora não no War Memorial, sede da companhia, e sim no Teatro Curran, em 12 de abril de 1979, em produção da Spring Opera Theater, companhia vinculada à Ópera de São Francisco.

Aquela récita teve a regência da própria Thea Musgrave, que se tornou a primeira diretora musical convidada e também a primeira mulher cuja composição foi encenada na história da companhia. Mary, Queen of Scots é a quinta das onze óperas que a compositora, hoje com 98 anos, escreveu até o momento.

Seu enredo explora a luta pela sobrevivência política de uma das rainhas mais icônicas da história, em meio à ousadia de três homens do seu círculo que tentam usurpar o seu poder. O dramaturgo Friedrich Schiller, o compositor belcantista Gaetano Donizetti e diversos romancistas e cineastas do século XX criaram histórias em torno da execução de Mary, ordenada por sua prima Elizabeth I.

Musgrave, porém, optou por concentrar-se no polêmico reinado da jovem Mary na Escócia e em sua constante luta para manter o trono. Três homens tentavam manipulá-la para se apropriar do seu poder: seu meio-irmão James, conde de Moray; o enigmático conde de Bothwell; e seu encantador, porém fraco, futuro marido, Lord Darnley.

Em seu libreto, Musgrave mescla cenas que incluem distúrbios públicos e intrigas na corte com a tranquila normalidade da maternidade de Mary, que canta uma canção de ninar ao filho (Sleep, little child), o futuro James I, rei da Escócia e da Inglaterra.

Aos poucos, vai-se revelando a sede de poder de cada um dos homens e a maneira calculista com que cada um tenta obtê-lo. A protagonista, no entanto, consegue antecipar-se a cada uma dessas traições, chegando a enfrentar a violência e até um estupro, em uma imagem cenicamente crua. No final da ópera, Mary, sem seguidores e sem opções, foge da Escócia para a Inglaterra, abdicando do trono e deixando para trás o filho, James I. Décadas depois, seria executada por ordem de Elizabeth I.

Em cena, a obra foi apresentada com a montagem trazida da English National Opera, de Londres, criada em 2025 para a estreia londrina do título. Concebida e dirigida por Stewart Laining, a produção situou a intriga no presente, com cenas da vida escocesa contemporânea e da sua violência sectária. A iluminação de D.M. Wood e Mimi Jordan Sherin ofereceu um jogo de claros e escuros que deu um toque lúgubre à cena. A montagem de Laining, que descreveu a obra como uma interpretação semiencenada, minimalista e austera, infelizmente não conseguiu criar uma conexão convincente ou realista com a história.

Cena de Mary, Queen of Scots na San Francisco Opera: Heidi Stober ajoelhada diante do coro armado

O cenário consistia em uma grande estrutura sobre o palco, com um teto de lona, uma espécie de tenda de campanha que cobria de lado a lado um palco vazio, além de uma grade de metal ao longo do proscênio. Essa grade separava a ação desenvolvida sob a tenda, turbulenta e violenta, feita de insurreições e motins, com enorme quantidade de personagens em movimento (coristas, comprimários e atores), armados com armas de fogo e metralhadoras, do lado mais próximo ao fosso. Ali, em certas cenas, posicionava-se a personagem Mary, como se refletisse um espaço de intimidade.

Tantas pessoas em cena dificultavam distinguir entre o coro e os personagens que representavam o povo da Escócia, o exército ou um grupo de nobres. Tampouco ajudaram os figurinos, com agasalhos, jaquetas, suéteres e gorros de inverno modernos, mais próprios de um grupo de exploradores ou de esquiadores. Os trajes de Mary também não faziam o espectador imaginar tratar-se de uma figura da realeza. Em suma, a montagem ficou aquém da qualidade com que costumam ser encenadas as obras nesse palco.

Musicalmente, porém, a partitura de Musgrave agradou por ser intensa, incisiva, potente e vívida. Apesar das suas complexidades, conseguiu acompanhar e impulsionar os turbulentos acontecimentos da história, com urgência dramática e um lirismo ascendente, em tonalidades modernas que contêm energia e comunicação musical.

Em sua estreia local, a regente italiana Clelia Cafiero fez uma boa leitura, com controle das exigências rítmicas, destacando as cores e o brio da música, e fazendo com que cada instrumento fosse ouvido, individualmente e em conjunto, com luminosidade.

A soprano norte-americana Heidi Stober foi, sem dúvida, o centro da produção. Sua voz ganhou corpo e a solidez necessária para dar conta do extenuante papel, que cantou nas récitas de Londres, exibindo agudos penetrantes e aguçada capacidade dramática e de atriz. Um dos seus melhores momentos foi a interpretação da emocionante ária Alone, alone, I stand alone, que cantou com notável vulnerabilidade.

O restante do extenso elenco teve bom desempenho, complementando o bom resultado vocal e musical da noite. O barítono inglês Thomas Mole mostrou-se ameaçador e malicioso como James, meio-irmão de Mary, com clareza no idioma, fraseado elegante e boa dicção. O conde de Bothwell foi cantado com brio e caráter pelo tenor galês Thomas Kinch. O incipiente heldentenor Christopher Sokolowski caracterizou, em cena, um Lord Henry Darnley fraco, frágil e alcoólatra, como pede o papel, com voz ampla, robusta e de agradável cor.

Merecem menção também o lendário baixo-barítono Philip Skinner, com longa carreira ligada a este teatro desde 1986, que trouxe nobreza, comedimento e uma voz segura a Lord Gordon; o baixo inglês David Soar, como o Cardeal Beaton; a mezzosoprano Sadie Cheslak, no papel de Mary Seton; e as sopranos Sofia Gotch (Mary Beaton), Mary Hoskins (Mary Livingston) e Alexa Frankian (Mary Fleming). Essas quatro últimas cantoras pertencem ao programa Adler Fellow, de jovens intérpretes de destaque do teatro.

O coro teve participação relevante em suas intervenções, mostrando-se um conjunto homogêneo e sólido, sob a condução de John Keene, seu diretor titular. Houve muitos aplausos para os solistas e solidariedade do público presente aos músicos da orquestra.

Vale mencionar que a obra não era encenada em nenhum teatro norte-americano desde 1981, quando foi oferecida pela New York City Opera. As récitas em São Francisco são uma homenagem à compositora, que não esteve presente por sua idade avançada, mas para quem se preparam diversos concertos e reposições das suas óperas por ocasião do seu centenário.


Fotos: Matthew Washburn/San Francisco Opera.


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