No TMRJ, uma “Cavalleria Rusticana” que não alçou voo
Encenação parte de uma boa ideia, mas visual parcialmente estereotipado e desempenho vocal da maioria dos solistas e do coro puxam para baixo espetáculo do Festival Oficina da Ópera. Leonardo Marques e Leonardo Samu comentam os dois elencos da produção.
Cavalleria Rusticana (1890)
Ópera em um ato
Música: Pietro Mascagni (1863-1945)
Libreto: Giovanni Targioni-Tozzetti (1863-1934) e Guido Menasci (1867-1925)
Base do libreto: Cavalleria Rusticana, novela de Giovanni Verga (1840-1922)
Theatro Municipal do Rio de Janeiro
11 e 12 de setembro de 2026
Direção musical: Natália Salinas
Direção cênica: Daniel Salgado
Cenografia: Vinícius Lugon
Figurinos: Fael di Rocca
Iluminação: Jonas Soares
Elenco:
Turiddu: Paulo Mandarino / Ivan Jorgensen, tenores
Santuzza: Denise de Freitas, mezzosoprano / Fernanda Schleder, soprano
Alfio: Inácio de Nonno / Fernando Lorenzo, barítonos
Mamma Lucia: Andressa Inácio, contralto / Simone Chaves, mezzosoprano
Lola: Lara Cavalcanti, mezzosoprano / Mariana Gomes, soprano
Coral do Theatro Municipal (preparação: Cyrano Sales)
Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal
Ao contrário das suas edições anteriores – nas quais o título mais relevante vinha depois de outros dois títulos de menor porte –, o IV Festival Oficina da Ópera, promovido pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro, começou em 2026 já com a sua principal produção: Cavalleria Rusticana, ópera em ato único de Pietro Mascagni sobre libreto de Giovanni Targioni-Tozzetti e Guido Menasci, com base na novela homônima de Giovanni Verga (considerado o maior escritor e dramaturgo do Verismo italiano), que esteve em cartaz na casa no último fim de semana.
A trama é bem conhecida: seduzida por ele, Santuzza ama Turiddu, que na verdade é apaixonado por Lola, que por sua vez é casada com Alfio. O leitor interessado encontra maiores informações sobre a obra-prima de Mascagni na resenha que publicamos no ano passado, quando a ópera foi apresentada em Belo Horizonte (aqui) e também no programa de sala do TMRJ (aqui).
Primeira récita (por Leonardo Marques)
Em seu texto no referido programa de sala, o encenador Daniel Salgado mostrou que partiu de um mote bem interessante:
“(…) Todas as personagens – sem exceção – agem de acordo com princípios morais arcaicos, em que justiça e vingança são sinônimos. (…) Tomado pelo ciúme, Turiddu vinga-se de Lola traindo-a com Santuzza. Lola, por sua vez, vinga-se de Turiddu tornando-o seu amante e permanecendo com Alfio. Santuzza, que acaba por se apaixonar por Turiddu e deseja firmar sua relação com o jovem, depois de inúmeras tentativas de conversa, humilhada e agredida, vinga-se do casal de amantes denunciando-os para Alfio. Este último, diante de tal infâmia, deve vingar sua honra ferida lavando-a com sangue. Todas essas sucessivas vinganças desencadeiam o duelo entre Turiddu e Alfio que dá nome à ópera: ‘Cavalheirismo rústico’. (…) Esse ‘jogo de vingança’ arcaico, que abre precedentes para a trágica lógica de uma sociedade de justiceiros, revela também que o conjunto dos habitantes dessa cidade de interior se vigia, julgando e condenando as pessoas, e se pune, imprimindo o desejo público de vingança, o tempo todo. Esse contorno é dado pelo coro, que representa o conjunto da sociedade e que não contesta a morte de Turiddu ao final da ópera”.
O diretor situou a ação no interior de Minas Gerais, em uma tentativa, aparentemente, de trazer a trama para mais próximo do público e, conforme ele mesmo afirma em seu texto, porque as situações abordadas na obra e ressaltadas em sua encenação são universais, poderiam acontecer em qualquer lugar. Até aqui, tudo bem, incluindo a interessante cena final, que corroborou a visão do diretor: diante do assassinato ocorrido fora de cena, a população impede que representantes da lei se dirijam ao local da execução, protegendo, portanto, a vingança do marido traído, por considerá-la “justa”.
O problema foi o excesso de estereótipos vistos no palco, especialmente nos figurinos de Fael di Rocca (como as “camisas xadrez” para alguns homens), mas também no cenário de Vinícius Lugon (com espécies de bandeirinhas penduradas sobre o palco). Por vezes, o conjunto visual lembrava mais uma festa junina e menos uma celebração de Páscoa. A iluminação de Jonas Soares funcionou muito bem ao retratar a passagem do dia, mas se limitou a essa função.
Na récita do dia 11 de setembro, o Coro do Theatro Municipal, preparado por Cyrano Sales, mostrou-se dedicado (pelo menos com parte dos seus integrantes) com a movimentação cênica (direção de movimento de Mônica Barbosa), mas, sob o aspecto vocal, apresentou uma das suas performances menos satisfatórias dos últimos tempos, com interpretação “reta”, sem matizes, e sonoridade por vezes estridente.
Os dois protagonistas ofereceram performances diametralmente opostas. A mezzosoprano Denise de Freitas soube expressar muito bem em cena o sofrimento e os ciúmes de Santuzza, mas, vocalmente, não esteve tão à vontade, especialmente na região mais aguda. Ao contrário, o Turiddu de Paulo Mandarino não convenceu muito cenicamente, mas foi do tenor a performance vocal mais segura e satisfatória da récita, com bons agudos e boa projeção.

Os demais solistas não empolgaram. O barítono Inácio de Nonno até foi um Alfio razoável em cena, mas o desgaste natural da sua voz impediu-o de oferecer ao público um canto atraente. A mezzosoprano Lara Cavalcanti não convenceu como Lola, com atuação e voz frias. E a contralto Andressa Inácio interpretou Mamma Lucia com boa presença, especialmente na cena final, ao expressar com estudada contenção a dor da mãe que teve o filho assassinado, mas, sob o aspecto vocal, problemas técnicos muito evidentes impediram-na de oferecer ao público uma performance minimamente aceitável.
Por fim, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, sob a regência da argentina Natalia Salinas, ofereceu uma récita digna, mesmo considerando algumas falhas nas cordas. E os metais, ao contrário do que costuma acontecer, não fizeram feio.
Segunda récita (por Leonardo Samu)

Com relação à récita do dia 12 de setembro, o que se viu foi um espetáculo de mediano a fraco, com bons problemas relacionados à linguagem musical. Focando o olhar à orquestra e consequentemente à regência, notórias foram as dificuldades das cordas em muitas passagens, sobretudo nos momentos descobertos, sem notas graves harmonicamente sustentando as linhas melódicas. Por vezes, a imprecisão dos violinos proporcionava certa instabilidade ao ouvinte, ocasionando inclusive problemas de afinação em um naipe tão importante, porém inseguro. Isso ocorreu até no famoso Intermezzo. Aqui, quando as cordas graves entraram no texto musical, a peça ficou interessante, bela e sensível, em um adequado andamento.
Outra questão perceptível foi em relação aos afetos presentes na partitura musical. Em se tratando de uma ópera, não só fortes e fracos foram inseridos à expressão musical, como também sentimentos (cores, em uma explicação sinestésica) próprios voltados à construção de afetos muito comuns a esse tipo de composição. Já no Prelúdio foi possível perceber que a orquestra não foi capaz de demonstrar as diferentes nuances propostas, sugerindo que todo o texto musical tivesse apenas um caráter a ser expresso, tudo em uma igualdade bastante linear, sem diferenças marcadas nas passagens. Desse modo, faltou uma condução adequada que pudesse mostrar musicalmente as nuances próprias da partitura. Ao final de toda apresentação, notória era apenas a diferenciação estabelecida em muito ou pouco volume.
Nos cantores escalados para a récita, a mesma característica notada na orquestra se fez presente, além das questões referentes à voz. De Santuzza, interpretada por Fernanda Schleder, observaram-se notas graves inaudíveis, com certa melhora na área média ou aguda. Sua expressão dramática por vezes era acentuada ao extremo, com expressões faciais e gestos, por vezes, caricatos por demais. Quanto ao Turiddu, apresentado por Ivan Jorgensen, ouviu-se uma interpretação cativante em O Lola, c’hai di latti la cammisa, logo no início. Com um texto bastante romântico, a ária foi expressiva e interessante! No decorrer de toda ópera, seu papel foi ajustado, sem grandes potencialidades dramáticas, mas cumprindo a objetividade no plano musical.

A personagem Mamma Lucia esteve a cargo de Simone Chaves, com atuação extremamente burocrática, sem expressividade musical ou cênica. Pode-se dizer que a personagem cumpriu a sua missão, em objetividade bastante prática. Sobre Alfio, já em sua primeira aparição (Il cavallo scalpita) foi possível constatar o baixo poder de convencimento de Fernando Lorenzo, sustentado pelas incertezas de uma orquestra que parecia se precipitar diante de uma partitura repleta de ritmos. Desencontrados, instrumentos e cantor pareceriam demandar um ajuste, trazendo certo desconforto ao ouvinte. Apenas no dueto Il Signore vi manda, compar Alfio pude sentir melhora do personagem, com mais segurança e fluidez musical. E, por falar em melhora, de fato, entre os cantores valeu a interpretação de Mariana Gomes para Lola. Sua presença cênica foi extraordinária, com uma voz sustentada, projetada e audível nas suas aparições, sempre elegante e centrada!
Do Coro, esperava-se mais. Ainda que em Gli aranci olezzano a atuação tenha sido bonita, no restante faltou visão de conjunto, algo bastante notório em A casa, a casa, logo após o intermezzo, quando desencontros nítidos foram notados na interpretação da peça. Até o Regina Coeli soou um tanto inseguro, melhorando um pouco na sequência, funcionando melhor a atuação cênica do conjunto.
A iluminação (de Jonas Soares) proposta para o espetáculo cumpriu perfeitamente o burocrático, representando a noite e o dia com cores características, tudo na objetividade, sem grandes inovações. Os figurinos (de Fael di Rocca), tão folclóricos na tentativa de expressar as Minas Gerais, deixaram os personagens devidamente caricatos, demarcados por estereótipos, na parcialidade de quem viu o interior do estado sob um olhar pontual. O mesmo se pode dizer do cenário (de Vinícius Lugon) que, além dessa questão, trouxe amplidões que certamente podem ter prejudicado a projeção das vozes.

Como questão final, ressalvo que, durante a interpretação do Intermezzo, peça aguardada e certamente a mais conhecida da ópera, uma bailarina dançava com movimentos leves – exatamente num momento em que a música falaria por si só! Pareceu-me que, com isso, manifestava-se certa necessidade da direção do espetáculo (de Daniel Salgado) de preenchimento dos espaços, ao utilizar uma linguagem corporal que, para o espectador, trouxesse “distração”, enquanto a bela música executada, protagonista por excelência, passasse a mero acompanhamento, pela extremada presença de um quase kitsch.
No fim da apresentação o público fez a festa! Aliás, não foi preciso nem concluir a ópera! A praticamente cada trecho havia alguma manifestação, seja com palmas ou com conversas e comentários a qualquer momento, ainda que o silêncio devesse ser o grande protagonista da plateia! Dali, não ouvi celular tocar, mas apenas uma criança, algumas fileiras à minha frente, que usava o seu aparelho para jogar! Quem quisesse concentração ou ambiente silencioso, que procurasse, claro, outro espaço! De fato, tivemos no dia 12 um sério problema alheio à produção, específico do público presente. Interessante destacar que a atenção total dedicada às cenas só ocorria quando um volume sonoro significativo vinha do palco. Toda vez que os instrumentos soavam piano proporcionavam à plateia a possibilidade de conversas, troca de ideias…
E assim chegamos a mais uma edição do Festival Oficina de Ópera do TMRJ. Tenho acompanhado desde o primeiro, e considero o projeto extremamente interessante. Faço votos que haja continuidade por mais outros anos, na expectativa de maior qualificação, sobretudo musical.
Fotos: Daniel Ebendinger (na foto principal, Denise de Freitas e Paulo Mandarino).

Leonardo Samu é formado em Letras pela UERJ, com mestrado e doutorado em língua portuguesa. Possui também graduação em Música (Piano) pela UFRJ. Atua como professor na cidade do Rio de Janeiro.

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.
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