Artistas do Teatro di San Carlo participam de evento em São Paulo
Na semana passada, as cidades de Buenos Aires e São Paulo receberam uma visita mais que especial: Fulvio Macchiardi, superintendente e diretor artístico do Teatro di San Carlo, empossado no final do ano passado, e três artistas da academia de ópera do célebre teatro napolitano.
Em 8 de setembro, em Buenos Aires, Macchiardi firmou um acordo de cooperação internacional entre o San Carlo e o Teatro Colón, visando o intercâmbio de artistas e de produções entre os dois teatros. Após as cerimônias oficiais, houve um recital com os jovens da academia.
No dia seguinte, em São Paulo, o superintendente e os artistas integraram a missão empresarial italiana no Brasil, evento que teve início na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). O encerramento foi na Praça das Artes, parte do complexo do Theatro Municipal de São Paulo, com um recital dos artistas da academia na histórica Sala do Conservatório.
Se em São Paulo não houve a tratativa de uma parceria com o Theatro Municipal, houve, ao menos, uma aproximação com o teatro. Edilson Venturelli, diretor executivo do Instituto Baccarelli e do Municipal, não só cedeu o espaço como estava presente na apresentação. O recital foi realizado pelo Consulado Geral da Itália em São Paulo e pelo Istituto Italiano di Cultura San Paolo, que contaram com a produção de Paulo Esper.
A canção napolitana
Os jovens artistas da Accademia del Teatro di San Carlo — a soprano Anna Grotto, o tenor Emanuelle Pellegrini e o pianista Luca Spinosa — apresentaram, tanto em Buenos Aires quanto em São Paulo, o recital Napoli e il Suono del Mondo. O programa partiu de árias de L’Elisir d’Amore, de Gaetano Donizetti — um dos primeiros diretores do San Carlo —, e passou por canções do compositor para chegar às populares canções cantadas em dialeto napolitano. Como o evento tratava de um intercâmbio empresarial entre Itália e Brasil, o curto recital foi encerrado com uma canção popular brasileira cantada em italiano: Aquarela (ou Acquarello), de Toquinho.
A ideia do programa foi construir o percurso que levou à canção popular napolitana. E essa escolha teve uma importante motivação: em 5 de junho, a Itália lançou oficialmente a candidatura da canzone classica napoletana ao título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. O título oficial deve sair em alguns anos.
O Teatro di San Carlo e a temporada 2026/2027
Na manhã seguinte, na sede do Istituto Italiano di Cultura San Paolo e com a presença de Lillo Teodoro Guarneri, diretor do Istituto, Fulvio Macchiardi apresentou à imprensa brasileira a temporada 2026/2027 do Teatro San Carlo. Nelson Rubens Kunze, diretor-editor da Revista Concerto, esteve presente no evento.

Macchiardi não se limitou a apresentar títulos e diretores envolvidos na temporada que se iniciará em dezembro. Ao contrário, ele expôs a lógica e as ideias que o nortearam ao elaborar essa temporada que marcará os 290 anos da inauguração do teatro e o início de uma década comemorativa preparando a grande festa dos 300 anos, em 2037. A ideia, nos próximos anos, é valorizar a história do San Carlo e da Nápoles do século XVIII.
Desse modo, o foco da programação, pelo menos no próximo ano, não está mais no star system, que tem feito do San Carlo o teatro com elenco mais estrelado da Itália — na semana passada mesmo, na véspera da viagem de Macchiardi à América do Sul, ganhou destaque nas redes sociais dos melômanos e nos sites especializados a Aida em forma de concerto com Anna Netrebko no papel-título, Jonas Kaufmann como Radamés, Luca Salsi como Amonasro e, como Amneris, Elizabeth DeShong (a única do quarteto que estará presente na próxima temporada).
Isso não quer dizer que a excelente acústica do San Carlo deixará de servir a vozes de qualidade. Ao contrário: na temporada estão cantores como a excelente soprano Mariangela Sicilia, cuja carreira decolou de forma meteórica nos últimos anos, Marta Torbidoni, outra estrela em ascensão, dona de uma voz enorme, Anna Pirozzi, a inesquecível Lady Macbeth da produção de Macbeth de Bob Wilson no TMSP, Maria José Siri (outra conhecida do público paulistano), Roberta Mantegna, Yolanda Auyanet, Annalisa Stroppa (a Carmen da produção recente do TMSP), Elizabeth DeShong, Gregory Kunde (que já fez Radamès e Otello em São Paulo), Luciano Ganci, Piotr Beczala, o tenor brasileiro Atalla Ayan, Igor Golovatenko, Alex Esposito e tantos outros cantores.
As óperas
A temporada de óperas conta com onze títulos e será aberta por Luisa Miller, que Verdi compôs para o San Carlo. E essa será a regra pelos próximos anos: as temporadas serão abertas com composições que estrearam no teatro. Como estamos falando de um dos teatros mais antigos e importantes do mundo, há muitas. Rossini, por exemplo, que foi um dos diretores do San Carlo, escreveu dez óperas para o teatro. E — observou Macchardi — como se tratava de um teatro de corte, não podiam ser apresentadas óperas-bufas, o que obrigou Rossini a compor dramas como Elisabetta, Regina d’Inghilterra, Mosè in Egitto, Ermione, La Donna del Lago, Zelmira…
Outro ponto que norteou a montagem da temporada foi levar ao público o percurso da Escola Napolitana, com títulos tanto pertencentes quanto resultantes do Settecento napolitano. É o caso de Nina, o sia la Pazza per Amore, de Paisiello, e de Otto Mesi in Due Ore, o sia Gli Esiliati in Siberia, de Donizetti. As obras serão exibidas em abril, em dias alternados.
Como bem explicou Lillo Guarneri, a importância do Settecento napolitano vai além de ser o século da inauguração do San Carlo — ou, melhor dizendo, a construção e a inauguração do teatro estão inseridas em um contexto mais amplo. “No 1700, Nápoles era a cidade mais importante e mais rica da Europa. O reino do rei Carlo Bourbon era o mais poderoso da Itália, ia de Roma, Nápoles, até a Sicília. Esse rei era um Bourbon, relacionado com a França. E tinha uma mentalidade urbanista, tinha uma visão de reino, um reino que progredia no campo econômico, político, artístico… e criou o teatro. (…) É o mesmo rei que depois foi coroado como Carlo III da Espanha e, em Madri, fez o memo que tinha feito em Nápoles”.
Para Macchiardi, na temporada de um teatro da importância do San Carlo não pode faltar a encomenda de uma nova ópera. Neste ano, a encomenda ficou com o compositor italiano Alessandro Solbiati. Ele vai completar a música de La Chute de la Maison Usher, deixada inacabada por Debussy.
Aida voltará ao palco do San Carlo, mas, dessa vez, encenada. A nova produção será assinada pela diretora de teatro Serena Sinigaglia. “Eu gosto muito da direção cênica de diretores de teatro de prosa”, afirmou Macchardi. Segundo ele, esses diretores valorizam os aspectos dramatúrgicos e psicológicos da obra. Será essa nova produção que, em julho de 2027, o San Carlo levará a Tóquio, em uma importante turnê internacional.
Produções históricas continuam a fazer parte da temporada do San Carlo — o público mais conservador não terá motivos para reclamar. O mais emblemático exemplo é de Franco Zeffirelli para Pagliacci, de Leoncavallo. Em março, essa produção pertencente à Ópera de Roma será apresentada pela primeira vez em Nápoles. Segundo Macchiardi, a grandiosidade do espetáculo, que entre cenários e figurinos precisa de dezessete caminhões grandes para ser transportado, justifica o fato de a ópera ser apresentada sozinha, e não em dobradinha, como estamos habituados a vê-la.
Completam a lista de títulos da temporada: Madama Butterfly, de Puccini; Peter Grimes, de Britten; Il Barbiere di Siviglia, de Rossini; e uma versão encenada de La Damnation de Faust, de Berlioz, que terá, em um dos elencos, o tenor brasileiro Atalla Ayan no papel-título.
Além das óperas
Nem só de ópera vive o San Carlo. Afinal de contas, o teatro tem o corpo de baile e a escola de balé mais antigos da Itália. Haverá seis títulos de balé, clássicos e contemporâneos.
O teatro também conta com temporadas de concerto, música de câmara e um festival dedicado ao piano. Como em 2027 serão lembrados os 200 anos da morte de Beethoven, o San Carlo apresentará todos os concertos do compositor, bem como a Nona Sinfonia. Também na série de câmara Beethoven estará fortemente presente.
Dentre os maestros que passarão pelo San Carlo, tanto em concertos quanto em óperas, estão nomes importantes como Daniel Oren, Renato Palumbo, Fabio Biondi, Asher Fisch, Charles Dutoit, Ton Koopman e Bertrand de Billy.
Em resumo, mesmo com pouco tempo para montar a sua primeira temporada à frente do San Carlo, Macchiardi conseguiu elaborar um programa atraente, equilibrado e interessante, com maestros, diretores e cantores importantes. Tudo indica que será uma bela temporada. Mas, antes, em outubro, o público napolitano terá o imenso privilégio de ver Alcina, de Händel, com Lisette Oropesa no papel-título!
Fotos: José Luiz Altieri.

Cofundadora do site Notas Musicais, é a correspondente no Brasil das revistas l’Opera (Itália) e Pro Ópera (México). Colabora, ainda, com a revista Opera with Opera News (UK) e com o site L’Ape Musicale (Itália). Fez parte do júri das edições 2020 e 2022 a 2026 do Concurso Brasileiro de Canto ‘Maria Callas’ e é membro do conselho de Amigos da Cia. Ópera São Paulo. Em 2017, fez a tradução, para o português, do libreto da ópera Tres Sombreros de Copa, de Ricardo Llorca, para a estreia mundial da obra, em São Paulo. Estudou canto durante vários anos e tem se dedicado ao estudo da história da ópera e do canto lírico.
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