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Max Jota: um brasileiro na Itália

Em 2027 o Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas realizará a sua 25ª edição consecutiva. Por onde andam os vencedores de todas essas edições? Para tentar responder a essa pergunta, Notas Musicais vai conversar com alguns dos vencedores de edições anteriores do concurso. Começamos por um vencedor da 10ª edição, em 2011: o tenor Max Jota, que afirma categoricamente: “O Concurso Maria Callas mudou a minha vida”.

A descoberta de uma paixão

Max Jota é uma das pessoas mais doces e gentis que conheço. Isso nada tem a ver, no entanto, com uma personalidade acomodada. Ao contrário: ele é o exemplo de alguém que descobriu um dom, uma paixão, perseguiu o seu sonho sem medir esforços, teve a coragem de mudar radicalmente de vida, e conseguiu atingir os seus objetivos.

Max já não era tão jovem quando o canto entrou em sua vida. Natural de Olinda, Pernambuco, ele já estava aparentemente acomodado, trabalhando em um banco e cursando Comunicação na Universidade Federal da Paraíba, quando o inesperado aconteceu. Na casa de um amigo, foi apresentado ao DVD com a dobradinha Cavalleria Rusticana e Pagliacci. Estamos falando do famoso filme de Franco Zeffirelli, com Georges Prêtre à frente da Orquestra do Teatro alla Scala, Plácido Domingo interpretando tanto Turiddu quanto Canio, Elena Obraztsova como Santuzza e Teresa Stratas como Nedda. Max contou que o impacto provocado pela Cavalleria já foi tão grande, que ele chorou tanto, que nem conseguiu assistir direito a Pagliacci.

Max passou toda aquela semana sob os efeitos dessa experiência reveladora. Foi quando decidiu aproximar-se da música. A primeira ideia foi entrar em um coral. Fez alguns testes, mas os regentes dos corais não o aceitaram: ele não sabia cantar, era desafinado. Em vez de desistir, ele optou por resolver o problema: foi fazer aulas de canto e estudar solfejo. Ingressou no curso de Música na Federal da Paraíba (onde também concluiu a graduação em Comunicação), saiu do banco e passou a se dedicar à música, particularmente ao canto.

Em 2009, inscreveu-se no Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas. “Mudou a minha vida”, contou-me Max. E não foi uma vitória no concurso a responsável pela nova transformação — ele sequer chegou à fase final. Acontece que a premiação não é o único objetivo do Concurso Maria Callas: também é proporcionado aos candidatos, sobretudo por meio de masterclasses, o convívio com importantes nomes da ópera do cenário internacional que integram o júri. Naquele ano, Vincenzo De Vivo — músico atento, generoso e de profundo conhecimento, diretor da Academia de Arte Lírica, em Osimo — fazia parte da banca. A voz de Max chamou a atenção de De Vivo durante as provas, e, ao ministrar uma masterclass, ele pediu que o tenor cantasse algo.

Foi aí que De Vivo sugeriu que Max fosse estudar na Itália, que fosse fazer as audições para a Scuola dell’Opera Italiana do Teatro Comunale de Bolonha. E Max não pensou duas vezes. No limite da idade, essa seria a sua única chance. “Eu vendi tudo para poder ir fazer essa audição”, contou-me. “Eu passei fome, passei frio, passei vergonha”, disse.

Max Jota como Samson no Teatro Nacional Eslovaco, em 2025 (foto: Marek Olbrzymek)

A mudança para a Itália e os estudos

Antes de ir para Bolonha, Max passou por Roma para fazer algumas aulas de canto a fim de se preparar para a prova de admissão. Em Bolonha, passou por três dias de provas: teve que cantar árias, canções e fazer aula diante da banca. A prova se encerrou com um concerto no Teatro Comunale de Bolonha. Ele cantou Recondita armonia, da ópera Tosca. O resultado só ia sair oficialmente no dia seguinte, mas Max não podia esperar. Foi quando o diretor lhe deu as boas-vindas à escola de Bolonha. Max, emocionado, ajoelhou-se e chorou.

Os dois anos em Bolonha não foram fáceis, sobretudo o primeiro ano, em que teve um problema no joelho e, por conta das escadas, não pôde assistir à parte das aulas. Max quase foi mandado embora, inclusive porque era um dos poucos que não pertenciam a nenhuma agência, mas a sua voz garantiu que pudesse cursar o segundo ano e concluir os estudos.

Antes mesmo de terminar o curso, em 2011, Max veio a São Paulo para participar novamente do Concurso Maria Callas. Dessa vez, ele não só chegou à final, como foi um dos vencedores da 10ª edição.

Uma vez formado na Scuola de Bolonha, ainda em 2011 foi estudar por mais dois anos, dessa vez em Osimo, na Academia de Arte Lírica, onde De Vivo era (e ainda é) diretor artístico. Foi lá, com De Vivo, que Max sentiu um forte salto de qualidade em sua técnica.

Dentre os seus mestres, Max lembra com carinho da soprano Mirella Freni, com quem estudou em Modena. Ela era famosa por ser o terror dos alunos — “O mundo precisa mais de padeiros do que de cantores, vá ser padeiro!”, é uma das famosas frases de Freni. Mas Max garante: ela só dizia isso para os alunos que não estudavam, que não sabiam executar o que ela estava mandando ou, muitas vezes, sequer entendiam o que ela estava falando. Segundo ele, as aulas com Freni foram um período de rico aprendizado.

Em 2013, fez uma audição para o Studio Opera Toscano, que oferecia um ano de preparação para debutar uma ópera. Nada melhor para um artista em início de carreira. Max foi escolhido como o protagonista do primeiro elenco de Os Contos de Hoffmann. Foi a partir daí que o tenor brasileiro foi absorvido pela indústria da ópera italiana.

Max Jota como Calaf em sua primeira Turandot em Split, na Croácia

Vinte anos de palco

A sua primeira experiência no palco, no entanto, aconteceu ainda no Brasil, antes de ir para a Itália. Foi em 7 de setembro de 2007 (“no dia seguinte da morte de Luciano Pavarotti”, lembra Max), no Teatro José de Alencar, no Ceará, quando foi Danilo em A Viúva Alegre. No ano que vem, portanto, ele celebrará os seus vinte anos de palco.

No ano seguinte, 2008, no Teatro de Santa Isabel, no Recife, sob a regência do maestro Osman Gioia, ele protagonizou a sua primeira ópera. E não podia ser outra: Cavalleria Rusticana.

Recentemente, em 2024, Max deu vida a Don José na ópera Carmen, de Bizet, no Theatro Municipal de São Paulo. A produção teve a mezzosoprano Annalisa Stroppa no papel-título, direção musical de Roberto Minczuk, e direção cênica de Jorge Takla.

A carreira na Itália

Max Jota como Pinkerton

Desde o encontro com o maestro De Vivo no Concurso Maria Callas de 2009 e a decisão de partir para a Itália, Max estabeleceu-se em seu novo país, onde reside até hoje. Tornou-se um brasileiro na Itália — ou um pernambucano italianíssimo. Na Itália, ele criou vínculos, construiu uma cadeia de amigos, quase uma família, e uma carreira sólida, com produções que se sucedem e constantes viagens.

Dentre os inúmeros compromissos recentes, vale destacar a estreia no importante e excelente Maggio Musicale Fiorentino, em maio de 2026, como Riccardo em Un Ballo in Maschera, de Verdi. Em fevereiro do ano que vem, outro importante teatro italiano espera por ele: o La Fenice, de Veneza, onde Max interpretará Pinkerton em Madama Butterfly.

Além da Itália, Max se apresenta com frequência nos países vizinhos. No ano passado ele debutou como Samson na ópera Samson et Dalila, de Saint-Saëns, no Teatro Nacional Eslovaco, em Bratislava. No ano que vem, a produção deverá ser reprisada, novamente com Max como protagonista e transmitida pelo portal europeu Opera Vision.

Os papéis

Com sensibilidade aguçada, Max se entrega aos personagens que interpreta, independentemente de já ter ou não familiaridade com a ópera da qual está participando. Antes de começar a estudar musicalmente uma ópera, ele sempre faz pesquisas a respeito do momento histórico em que se passa a ação, da composição, da vida real do seu personagem (caso seja uma figura histórica) e da sua personalidade dentro da ópera — evolução psicológica, suas emoções…

“Estudando o personagem você se apaixona pela melodia. Nós que fazemos os papéis principais estamos muito ligados à emoção, aos sentimentos humanos, e cada parte musical revela alguma coisa que fala da gente”.

Quanto ao papel com o qual iniciou a sua carreira profissional, Max foi taxativo: “Hoffmann é um papel infinito, com seis árias”. Vencido esse desafio, ele já estava pronto para enfrentar a rotina de solista.

Max Jota como Turiddu (Cavalleria Rusicana, HNK Split, 2023)

Já Turiddu, o primeiro personagem de ópera ao qual o tenor deu vida quando ainda estava no Brasil, figura entre os papéis que ele mais interpretou. Nesta temporada de outono europeu, Max protagonizará Cavalleria Rusticana no circuito lombardo: Pavia, Como, Brescia e Cremona.

Os outros papéis mais presentes em sua carreira são Cavaradossi (Tosca), Calaf (Turandot), Riccardo (Un Ballo in Maschera), que o levou ao Maggio, e Don José (Carmen), que o trouxe a São Paulo. “Don José sofre uma forte transformação ao longo da ópera”.

“Pinkerton é uma paixão”, revela, sem julgar o caráter do anti-herói. Para ele, Pinkerton e o Duque de Mântua, em Rigoletto, são apenas reflexos dos homens dos seus respectivos tempos.

No mês que vem, Max vai adicionar um novo papel à sua lista. E que papel! Em 8 de novembro, na Ópera Romena de Craiova, ele debutará como Don Carlo, na versão de Modena (em cinco atos). “É um papel dos sonhos! Antes de começar a estudar a ópera, eu fui entender quem é Don Carlo, o que ele passa, o que ele vive. A música toda passa esse tormento que ele vive, mas sem dizer dos reais problemas dele. Don Carlo é construído para a explosão no agudo, é a personalidade do personagem, ele não raciocina, não é comedido, explode – e sobe para o agudo”. Max ressalta, ainda, o quanto Don Carlo se diferencia das óperas anteriores de Verdi, como o Ballo.

Outros papéis dos sonhos, que ele gostaria de debutar em breve, são Werther e Idomeneo, nas óperas homônimas de Massenet e Mozart. Já Otello, Canio (Pagliacci) e Luigi (Il Tabarro) podem esperar. Ao contrário de Don Carlo, “Otello, quando explode, vai para baixo, é como se engolisse o sofrimento, vai tudo para o coração. Eu nunca me vi cantando Otello”; mas Max não está fechado para o papel: ele sabe que, inevitavelmente, Otello virá, mas ainda não é o momento: terá que esperar uma maior maturidade cênica.

Com a garra de Max, é certo que Otello não tardará a chegar. E, enquanto ele não vem, que venha Don Carlo! Que Max tenha muito sucesso com esse grande papel verdiano.


Foto principal: acervo pessoal do artista.


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