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Assim falou Richard Strauss

Em concerto no dia 1º de outubro com participação das soprano Ludmilla Bauerfeldt, Sinfônica do Espírito Santo interpretou obras do grande compositor alemão.

Não irei mentir, caro leitor: eu não entendo praticamente nada da obra de Friedrich Nietzsche. Na época em que o assunto foi abordado na faculdade (de modo muito superficial, vale dizer), estudei o suficiente para passar na prova. Prefiro outras leituras: José Saramago, Agatha Christie, Domenico Starnone. A obra do filósofo bigodudo ainda não está na minha lista de prioridades ou pendências, e estou tranquilo em relação a isso. Porém, uma vez que a Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo – Oses programou para este ano de 2026 justamente um poema sinfônico baseado em uma das obras do mencionado filósofo alemão, qual seja, Also Sprach Zarathustra (Assim Falava Zaratustra ou “Zoroastro”, em português), estreada em 1896, do compositor Richard Strauss (1864-1949), sinto-me obrigado a pelo menos tentar entender alguma coisa a respeito do tema. Vale destacar que, além do poema sinfônico, o programa previa aquela que é uma das maiores realizações de Strauss: as Quatro Últimas Canções (estreia em 1950, após a morte do autor), que, ao contrário do que nos faz pensar o epíteto, não foram as derradeiras obras concluídas pelo compositor alemão, ainda que tenham sido concebidas já no apagar das luzes da sua longa existência. Antes de falar sobre elas, voltemos ao Zoroastro.

Zoroastro foi um profeta nascido na Pérsia no século VII a.C. e que, alegadamente, teria sido o fundador da mais antiga religião monoteísta da humanidade, o Zoroastrismo. Como nosso objetivo aqui não é discutir história da religião, vamos ao que interessa: o que, segundo Nietzsche, teria falado Zoroastro? E como isso se reflete na obra de Strauss? O roteiro é confuso, tanto que alguns autores, como Harmut Becker, dizem que “seria um erro querer ver filosofia musicada na obra, sobretudo porque o compositor tinha uma relação muito dividida com o filósofo, por conta dos ataques deste contra Richard Wagner”. Assim, a obra seria livremente baseada em Nietzsche e no otimismo europeu do final do século XIX.

De modo geral, sabe-se que Zoroastro, após passar anos isolado em uma caverna, decidiu voltar a conviver com o resto da humanidade, a fim de ensinar o sentido da vida – uma pretensão não muito simples. Nesse afã, ele confronta as religiões, retratadas em uma das passagens mais bonitas do poema sinfônico (em que pese a famosa frase do filósofo: “Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”, indicando que a cultura ocidental, naquele momento histórico, havia perdido a crença nas religiões mais tradicionais). Não encontrando respostas na espiritualidade institucionalizada, o observador se atira aos prazeres da carne, que, se o satisfazem por algum tempo, posteriormente lhe causam fastio.

Seria, então, o caso de se buscar explicações na ciência, mas esta também não basta para curar a angústia existencial da humanidade. Por fim, em uma abordagem não muito assertiva, indica-se que a resposta estaria na arte, na natureza (ou na tentativa de se conviver com ela, que é perfeita, ao passo que o homem é imperfeito), sendo que o próprio final da obra é apenas parcialmente resolvido. Nele, um sino bate doze vezes, e um homem caminha à noite, rumo ao desconhecido. A peça se encerra com uma espécie de enigma musical: as madeiras agudas e os violinos tocam em Si Maior, representando o imperfeito espírito humano, que está em aparente conflito com as notas dos contrabaixos, em Dó Maior, simbolizando a perfeição da natureza. Se o caro leitor ficou confuso, não se sinta só, como o Zoroastro dos tempos da caverna. Melhor tentar aproveitar a composição apenas do ponto de vista musical, e vida que segue! A obra tem momentos poéticos e momentos jocosos; passagens fúnebres e passagens histéricas; temas futurísticos e temas que remontam a sangrentas batalhas medievais; tudo isso, é claro, a depender do quão longe vai a imaginação do ouvinte…

As Quatro Últimas Canções, por sua vez, foram concebidas por Strauss em 1948, quando ele já tinha 84 anos de idade. Seus temas são a despedida, o cansaço que se apresenta no final da vida, mas jamais sentimentos de angústia ou desespero. A vida há de se concluir serenamente. As letras dos poemas empregados por Strauss talvez nem sejam tão importantes, muito embora indiquem de quais temas as canções irão tratar. Fundamentais, sim, são as linhas melódicas, os melismas – isto é, várias notas musicais diferentes em uma única sílaba ou vogal de uma palavra, estendendo-se sem pressa –, por meio dos quais a voz da cantora deverá flutuar sobre a sonoridade da orquestra. Nesse caso, é mais uma questão de atmosfera que de declamação de texto.

Ludmilla Bauerfeldt e Helder Trefzger à frente da Oses

Compareci ao concerto da quinta-feira, 1º de outubro, no Teatro da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. O programa começou com as Quatro Últimas Canções, em que a Oses, sob a direção musical de seu regente titular Helder Trefzger, acompanhou a soprano Ludmilla Bauerfeldt, que recentemente cantou o papel de Elisabetta di Valois no Don Carlo, de Giuseppe Verdi, encenado no Theatro Municipal de São Paulo. Em uma demonstração de grande profissionalismo e capacidade técnica, a soprano entregou uma bela prestação vocal, com agudos límpidos e muitíssimo bem sustentados. Alcançou o espírito da partitura de Strauss, com um canto etéreo, com excelente projeção, mesmo em condições acústicas que estão longe de serem as mais favoráveis aos cantores líricos – um problema crônico deste teatro. O timbre de Bauerfeldt é adequadíssimo a este tipo de repertório, sendo elogiável a versatilidade da cantora (muito elogiada na crítica de Leonardo Marques acerca de sua apresentação no Don Carlo, publicada neste mesmo site há alguns dias).

No que diz respeito à atuação da orquestra, desempenhou muito bem seu papel de acompanhadora, por mérito dos músicos, que observaram fielmente as dinâmicas da partitura, cuidando para não exagerar na produção sonora, e também do regente, preocupado em proporcionar andamentos que permitissem à cantora respirar sem que isso interrompesse a fluidez do canto. Destacaram-se, sobretudo, o Spalla da orquestra, Diego Adinolfi, que trouxe o necessário lirismo ao solo que é quase que um interlúdio na canção Beim Schlafengehen (Ao adormecer) e o trompista Jonatas Bastos, muito correto ao longo do ciclo, sobretudo no solo que encaminha para o encerramento a canção September (Setembro).

Em seguida, a fim de apresentar Assim Falava Zaratustra, a orquestra foi razoavelmente aumentada, embora não a ponto de atingir a formação completa proposta por Richard Strauss, uma vez que essa não caberia no palco do teatro: não há sala de concertos em Vitória que comporte 32 violinos, 12 violas, 12 violoncelos, 8 contrabaixos, etc., etc., perfazendo praticamente 100 músicos com instrumentos de dimensões significativas como órgão, sinos, contrafagote e outros mais. Mesmo assim, a Oses apresentou um desempenho bastante satisfatório, tocando com vigor e o necessário pathos a famosa introdução da obra (lá vai o crítico citar que ela foi usada na trilha sonora do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço…). A peça traz numerosos desafios para o regente, dentre os quais se destacam a necessidade de manter a orquestra sob controle o tempo todo, eis que a obra tem momentos que lembram uma espécie de caos, que, contraditoriamente, é minuciosamente organizado (Strauss era um gênio da orquestração, como se sabe), bem como a responsabilidade de não deixar a execução se tornar tediosa: afinal, o cartão de visitas de Zaratustra é conhecido até por quem nunca assistiu ao vivo a uma orquestra em sua vida, ao passo que os demais minutos da obra (aproximadamente meia hora) são infinitamente menos célebres.

Felizmente, Trefzger superou sem maiores problemas esses e os demais desafios. Quanto aos músicos, se levarmos em consideração que praticamente todos os naipes enfrentaram um ou vários obstáculos ao longo da partitura (Strauss divide os naipes diversas vezes, emprega variações de ritmo, andamentos e dinâmica que chegam a ser fisicamente cansativos para os intérpretes, e por aí vai), não há como se fazer algum destaque. Com efeito: ouviu-se uma sonoridade equilibrada, homogênea, à altura da obra.

Helder Trefzger rege a Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo

A Sinfônica apresentou, em 2026, obras imensamente desafiadoras. Cito aqui, como exemplos, este poema sinfônico, a Sinfonia nº 3 de Brahms, a Sinfonia nº 5 de Shostakovich, a Sinfonia nº 6 de Mahler, além de Petruschka e O Pássaro de Fogo, ambas composições de Stravinsky. Considerando que até hoje a Oses não possui uma casa para chamar de sua – espera-se que o próximo governador, seja lá quem for, conclua o Cais das Artes e dê a ele a destinação correta, isto é, que lá se torne a sede oficial da orquestra -, o conjunto capixaba tem desempenhado até bem demais o seu papel de principal organismo cultural do estado.

O que se nota é que, se a orquestra ainda alterna alguns altos e baixos em situações específicas (como, por exemplo, o rendimento de determinados naipes em determinadas apresentações, que às vezes destoam do restante da orquestra), a evolução tem sido constante. Para que esta evolução se perpetue e para que haja um reconhecimento maior da Sinfônica além das fronteiras do Espírito Santo, no entanto, maiores investimentos se fazem necessários. Não apenas no que tange à sede (que, idealmente, deve também ter toda uma estrutura paralela para ensaios, aulas magistrais, oficinas de música e concertos de câmara), como também em equipamentos de palco, instrumentos e remunerações compatíveis com a média nacional.

Muito já foi feito nos últimos anos, é verdade: basta lembrar que há duas décadas o cenário não era dos mais promissores. Nesse sentido, o trabalho da atual instituição gestora da Oses, a Companhia de Ópera do Espírito Santo (Coes), merece o nosso reconhecimento; contudo, se um governo pretende combater de maneira efetiva questões como violência, desemprego e má distribuição de renda, deverá, necessariamente, investir com seriedade em Cultura. Esperamos que haja avanços, e não retrocessos, em 2027.


Fotos: Lorenzo Savergnini.


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