Uma bela “La Tabernera del Puerto” em Bogotá
A zarzuela de Pablo Sorozábal integrou a temporada lírica do Teatro Mayor de Bogotá.
| La Tabernera del Puerto (1936) |
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Música: Pablo Sorozábal (1897-1988) Libreto: Federico Romero (1886-1976) e Guillermo Fernández-Shaw (1893-1965), baseado no “Romancillo marinero” de Federico Romero Zarzuela em três atos. |
| Teatro Mayor Julio Mario Santo Domingo de Bogotá, 1º de agosto de 2026 |
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Direção musical: Miquel Ortega Direção cênica: Mario Gas / Carlos Martos de la Vega |
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Cenografia: Ezio Frigerio Figurino: Franca Squarciapino Iluminação: Vinicio Cheli Movimento cênico: Aixa Gerra |
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Marola: Leonor Bonilla, soprano Juan de Eguía: César San Martín, barítono Leandro: Antonio Gandía, tenor Simpson: Rubén Amoretti, baixo Abel: María Paula Pataquiva, soprano Antigua: Amelia Font, mezzosoprano Chinchorro: Pep Molina, ator Ripalda: Erwin Barrera Verdier: Alexis Trejos Fulgen: Amilcar Almércigar Senen: Freddy Balza Valeriano: Gustavo Adolfo Giraldo Atores e atrizes: Yaritza Camargo Hernández (Tina), Fernanda Avendaño (Menga), Luisa Forero (aldeã), Danharry Colorado Cortés, Yurio Ruiz e Felipe Bejarano (fuzileiros navais norte-americanos), Juan David Roca (oficial da marinha) |
| Orquestra Filarmônica Juvenil e Coro Filarmônico Juvenil |
Desde a sua fundação, em 26 de maio de 2010, o Teatro Julio Mario Santo Domingo tornou-se o palco mais importante da capital colombiana, oferecendo anualmente uma ampla variedade de espetáculos de música (popular, clássica, antiga), além de dança, teatro e, naturalmente, uma temporada lírica. A atual edição dessa temporada optou por apresentar três récitas de La Tabernera del Puerto, zarzuela com música de Pablo Sorozábal (1897-1988).
Natural de San Sebastián e prolífico autor de obras sinfônicas e do gênero lírico, Sorozábal formou-se na Alemanha e desenvolveu também uma carreira de regente. Isso lhe permitiu conhecer a linguagem sinfônica, compreender a voz humana e imprimir às suas obras um refinamento orquestral variado, rico em cores e nuances.
La Tabernera del Puerto
Embora La Tabernera del Puerto não seja um título tão popular, nem faça parte do repertório lírico habitual dos teatros internacionais, é conhecida mundialmente graças à sua célebre romanza para tenor, ¡No puede ser! (cuja popularidade e presença regular nos programas surgiram, sobretudo, depois de ter sido incluída nos concertos dos Três Tenores: Domingo, Carreras e Pavarotti). Mais que isso, a obra é considerada uma notável composição musical e um pináculo da zarzuela, pela riqueza das suas melodias orquestrais e pela solidez da sua partitura, que entrelaça e une de maneira notável e uniforme a música, o drama e o desenvolvimento dos personagens, com uma construção teatral realizada com extremo cuidado.
La Tabernera del Puerto estreou em 6 de maio de 1936 e faz parte da modalidade conhecida como género grande da zarzuela — estilo que se aproxima mais do gênero operístico, em contraste com o género chico, formado por obras breves, curtas e de histórias simples. O género grande permitiu justamente maior amplitude para desenvolver tramas com força dramática, maior teatralidade e personagens mais completos, que expressam, como ocorre nesta história, sentimentos de amor, ambição, engano e até de redenção.
A história de La Tabernera se passa na localidade marítima imaginária de Cantabreda, no norte da Espanha, em 1936, o mesmo ano de sua estreia. Embora fictícia, a localidade evoca sem dúvida um lugar da costa do País Basco, tanto pela origem do compositor, natural de San Sebastián, Guipúzcoa, quanto pelo sobrenome Eguía, de um dos personagens principais.
No porto há uma taberna, de propriedade do contrabandista Juan de Eguía, onde a jovem Marola atende os marinheiros que ali se reúnem ou que passam pelo porto. Supondo-se que Marola seja esposa de Eguía, e sendo ela cortejada pelo jovem trovador Abel, embora na realidade esteja apaixonada pelo pescador Leandro, um grupo de mulheres a censura por enamorar todos os homens do porto, o que leva Eguía a agredi-la e maltratá-la.
Eguía, que na verdade é o pai de Marola, oferece a mão da filha a Leandro, em troca de que este introduza cocaína na cidade. Leandro aceita e, acompanhado de Marola, segue de barco rumo a uma caverna, à qual se chega pelo mar, para recolher as drogas. Os dois, no entanto, desaparecem nas águas por causa de uma forte tempestade.
O entristecido Eguía conta aos presentes que Marola era, na verdade, sua filha. O velho marinheiro inglês Simpson dá a notícia de que Marola e Leandro apareceram vivos e chegaram ao povoado detidos pela polícia. O arrependido contrabandista Eguía confessa ser o culpado do ocorrido e é preso, enquanto Marola e Leandro ficam em liberdade.

A zarzuela
A zarzuela, como é conhecido o gênero lírico, musical e cênico criado na Espanha (que contém diálogos falados e partes cantadas), toma o seu nome do Palácio de la Zarzuela, a residência da realeza espanhola situada nas proximidades de Madri, em cujo teatro começaram a ser realizadas as primeiras representações do gênero. A zarzuela poderia ser entendida, embora em sentido talvez não tão estrito ou correto, como a versão espanhola da opéra-comique francesa ou o Singspiel alemão, pelo uso de partes faladas e recitadas, ainda que a zarzuela se apegue mais ao caráter, à música, às festas, aos costumes, à literatura, enfim, ao folclore espanhol.
As origens da zarzuela remontam ao século XVI, quando o dramaturgo Lope de Vega escreveu uma obra intitulada La Selva sin Amor, uma comédia com orquestra, a que o autor se referiu como “uma coisa nova na Espanha”. Anos depois, em 1629, outro célebre dramaturgo espanhol, Calderón de la Barca, adotou pela primeira vez o termo zarzuela para a sua obra intitulada El Golfo de las Sirenas. Desde então, começaram a surgir diversos compositores espanhóis que compuseram zarzuelas barrocas, muitas das quais se perderam com o tempo, enquanto outras foram resgatadas e encenadas ao longo dos anos.
Em 10 de outubro de 1856, foi oficialmente fundado o Teatro de la Zarzuela, em Madri, e em 1873 o Teatro Apolo, onde eram representadas, e até hoje continuam sendo, apenas obras pertencentes a esse estilo musical. A zarzuela compartilhou a sua época de maior glória com a ópera e com o teatro de prosa e em verso no século XIX, e posteriormente com o cinema no século XX. Graças às turnês das companhias espanholas, o gênero se tornou conhecido e se difundiu especialmente na América Hispânica.
Atualmente, os principais teatros da Espanha incluem regularmente títulos de zarzuela em suas temporadas, e as ocasiões em que teatros fora da Espanha programaram zarzuela geralmente foram bem recebidas e aceitas. Os principais teatros da América Hispânica, porém, não a programam com a frequência que deveriam. Por isso é importante o trabalho do Teatro Mayor de Bogotá ao incluir zarzuelas em suas temporadas, mantendo vivo o gênero.
Vale mencionar que, como parte da presente temporada, em fevereiro deste ano foi realizada a montagem de El Vizconde, zarzuela cômica de Francisco Asenjo Barbieri (1823-1894), em coprodução entre o Teatro Mayor, o Teatro de la Zarzuela, a Fundação Juan March (que busca fomentar a cultura e a música na Espanha) e o Teatro Metropolitano de Medellín.

A produção do Teatro Mayor de Bogotá
A montagem com que La Tabernera del Puerto foi oferecida em Bogotá veio do Teatro de la Zarzuela, de Madri, que ao longo do tempo foi incorporando diretores de cena e cenógrafos de destaque. Os cenários foram concebidos pelo diretor italiano Ezio Frigerio, e os coloridos e elegantes figurinos por Franca Squarciapino, com iluminação de Vinicio Cheli.
A direção cênica coube ao célebre ator e diretor de cena catalão Mario Gas, conhecido por sua trajetória dirigindo obras de teatro e de lírica. Conhecedor da zarzuela, soube explorar os momentos dramáticos da partitura e realçar, com graça e naturalidade, a verve cômica que o libreto permite, com precisão na gestualidade, nos movimentos e nas coreografias, fazendo sobressair a parte humana e os sentimentos dos personagens, e ainda destacando problemas que Sorozábal levantou em seu tempo e que se revelam temas atuais, como a violência, os maus-tratos às mulheres e o narcotráfico.
A cena nos transporta para dentro de uma taberna escura e lúgubre. O fundo do palco foi representado por um enorme muro de pedra, elemento fixo que, quando as cadeiras e mesas da taberna eram retiradas, adquiria o aspecto de ruas escuras e de um cais. A iluminação em tons escuros acompanhou os momentos dramáticos com tonalidades azul-escuro, e com brancos brilhantes e radiantes nas partes mais alegres e emotivas.
Não poderia faltar o casal cômico, com suas partes faladas e a comicidade que imprimiram aos personagens Chinchorro e Antigua, recriados pelo ator espanhol Pep Molina e pela mezzosoprano Amelia Font, conhecida por sua ampla experiência no repertório lírico.
O melhor momento da produção de Frigerio foi a cena da embarcação atravessando uma intensa tempestade e afundando, realizada atrás de uma tênue cortina branca, com atraentes projeções e iluminação que representavam a chuva cerrada, os raios e trovões e a água do mar.

O elenco
O elenco de cantores, de ampla experiência na zarzuela e em obras operísticas, foi encabeçado pela jovem e delicada Marola, interpretada pela soprano andaluza Leonor Bonilla, de voz brilhante, nítida e muito musical, especialmente segura nos agudos penetrantes.
O barítono César San Martín deu vida ao malévolo Juan de Eguía, com lirismo e força dramática no canto, bem como com o respiro cômico proporcionado por sua divertida romanza La mujer de los quince a los veinte. O tenor Antonio Gandía teve bom desempenho como Leandro: outrora um tenor ligeiro, sua voz ganhou corpo e força e, embora seu canto não seja exatamente refinado, conquistou muitos aplausos e o entusiasmo do público depois da sua apaixonada No puede ser.
Com experiência, bons recursos musicais e uma voz profunda e robusta, o versátil baixo Rubén Amoretti fez sobressair o personagem Simpson, o velho lobo do mar inglês. A soprano María Paula Pataquiva agradou por sua candura, seu canto radiante e sua naturalidade cênica. O restante dos cantores, que completam o extenso elenco, realizou bom trabalho em seus respectivos personagens, e o Coro Filarmônico Juvenil demonstrou graça, presença cênica e coesão.
No fosso esteve o maestro espanhol Miquel Ortega, que dedicou grande parte da sua carreira a reger e difundir a zarzuela, e que extraiu uma leitura muito vivaz e alegre da partitura, à frente dos músicos da Orquestra Filarmônica Juvenil da Colômbia. A obra oferece muitas passagens musicalmente emocionantes, alegres e dramáticas, e Ortega soube encontrar a variedade necessária de timbres e cores para fazer da parte orquestral uma das fortalezas desta obra.

O Barroco tardio: reino compartilhado
Um dia antes da récita de La Tabernera del Puerto, o Teatro Mayor ofereceu, na intimidade do Teatro Estudio — uma pequena sala usada para concertos de música de câmara e de música antiga —, o concerto intitulado O Barroco tardio: reino compartilhado, a cargo do Ensamble Barroco de Bogotá. Em formato reduzido, de violino e cravo, o grupo executou composições de autores do Barroco francês, temperadas com obras dos mais destacados compositores do repertório de música antiga, como Händel e J. S. Bach. Do primeiro, foi executada a Sonata para violino e baixo contínuo em Lá menor. Já do segundo, a Sonata para violino e baixo contínuo em Mi menor.
Puderam-se ouvir, ainda, peças pouco conhecidas, como La Du Duq e o Rondeau da Suíte 1, do primeiro livro de Jacques Duphy, compositor francês do século XVII, dedicado ao estudo e à execução do cravo. Ouviu-se também o Terceiro Prelúdio de outro notável compositor de seu tempo, François Couperin, conhecido como Couperin le Grand por sua contribuição à composição para cravo e por seu virtuosismo nesse instrumento, assim como o Concerto nº 7 em Sol menor, pertencente a Les goûts réunis, que integra o conjunto de dez suítes compostas por esse autor em 1724. O programa terminou com a Sonata accademica em Ré menor, Op. 12, nº 12, de Francesco Maria Veracini, florentino, outro compositor italiano pouco conhecido, mas que deixou um amplo legado de sonatas para violino.
Em formato de pequena escala, o Ensamble Barroco de Bogotá contou com a presença de seu diretor, o maestro francês Julien Faure, que, ao cravo, mostrou habilidade e expressividade, soube extrair de seu instrumento as melhores notas e cinzelou uma execução plena de colorido, dramatismo e timbres – e adaptada aos diferentes estilos de composição surgidos em vários países europeus no século XVIII, que mostram seu caráter e sua sonoridade particular, cheia de variedade, cores e nuances.
Faure interpretou suas peças a solo com sentimento e emoção, e foi acompanhado pelo vigoroso virtuosismo que emanou do violino do maestro Santiago Medina. Ambos alcançaram conjunção e coesão, mas sobretudo entrosamento e homogeneidade para alcançar o público presente, que lotou todas as poltronas do Teatro Estudio.
Eu já tivera a sorte de ouvir, no ano passado, o Ensamble Barroco de Bogotá em um concerto no qual acompanhava o contratenor alemão Andreas Scholl. Em minha opinião, o grupo adquiriu a experiência necessária para participar de uma montagem operística do repertório barroco.
Fotos La Tabernera del Puerto: Juan Diego Castillo / Teatro Mayor Julio Mario Santo Domingo.
Foto do Ensamble Barroco de Bogotá: Andrés Riaños / Teatro Mayor Julio Mario Santo Domingo.

Crítico musical, contribui com a revista eletrônica mexicana Pro Ópera e com o website italiano Gli Amici della Musica. Ramón Jacques também mantém o blog Una Voce Poco Fa.
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