Furioso: fúria, loucura e virtuosismo de um herói barroco
Concerto do contratenor Xavier Sabata e Le Concert de l’Hostel de Dieu, sob a direção musical de Franck-Emmanuel Comte, no Teatro Mayor Julio Mario Santo Domingo de Bogotá, Colômbia, em 18 de setembro de 2026: o programa foi gravado e lançado sob o título “Furioso” pelo selo francês Aparté Music.
Como parte da programação do XV Festival Internacional de Música Sacra de Bogotá, que teve como tema “la concordia“, o Teatro Mayor Julio Mario Santo Domingo, na capital colombiana, abrigou em sua sala principal o atraente concerto intitulado Furioso: fúria, loucura e virtuosismo de um herói barroco. O concerto foi interpretado pelo conjunto francês de música antiga Le Concert de l’Hostel de Dieu, e pelo contratenor catalão Xavier Sabata.
O título tem como foco Orlando Furioso, personagem do poema épico homônimo, escrito pelo poeta italiano Ludovico Ariosto e publicado em 1532. O poema trata da guerra e do amor não correspondido, assim como do ideal romântico da cavalaria; nele, Ariosto conseguiu mesclar magistralmente o realismo com a fantasia, e o humor com a tragédia. O mito de Orlando Furioso fascinou a imaginação do Barroco tanto por seu heroísmo cavalheiresco quanto por seu tormento romântico e sua agitação psicológica, a ponto de se converter em fonte inesgotável de inspiração musical e dramática, que levou diversos autores a compor obras relacionadas ao tema, nas quais se confrontavam a sanidade e a loucura, aludindo à ordem e ao caos.
Como resultado de uma extensa pesquisa e colaboração entre Xavier Sabata e Franck-Emmanuel Comte (diretor titular de Le Concert de l’Hostel de Dieu), nasceu este programa. Ele explora diversas facetas de Orlando por meio de trechos de óperas famosas relacionadas ao tema, de compositores como Georg Friedrich Händel (1685-1759) e Antonio Vivaldi (1678-1741), bem como de obras operísticas menos conhecidas, dos compositores italianos Agostino Steffani (1654-1728) e Nicola Porpora (1686-1768) e do compositor austríaco Johann Joseph Fux (1660-1741).
A cuidadosa seleção de recitativos, árias e movimentos instrumentais não está encadeada nem ordenada para contar a história ou toda a epopeia, mas para tocar diversos aspectos do mundo interior do herói: seus pontos de ruptura, suas feridas, seus lamentos, seus estados de ânimo (como a ira e o amor) e, sobretudo, sua fragilidade psicológica, que o leva à perda da razão, à loucura, que ele utiliza como escudo para fugir da realidade.
Vale mencionar que este programa, ouvido com exclusividade em Bogotá, como única parada do conjunto e do solista no continente americano, e que faz parte de uma turnê de apresentações que realizam pela Europa, rendeu também uma gravação, intitulada Furioso, lançada em abril deste ano pelo selo francês Aparté Music.

O concerto começou com duas agradáveis e pouco conhecidas aberturas: a da ópera Orlando Generoso (1691), de Agostino Steffani, e a solene Abertura K 355, II. Rigaudon, III. Lourée, do compositor austríaco Johann Joseph Fux, compositor e figura da corte imperial de Viena. A obra mais duradoura de Fux não faz parte do seu amplo catálogo de composições musicais, mas é seu tratado sobre o contraponto, Gradus ad Parnassum, influente livro sobre o estilo de Palestrina e a polifonia do Renascimento. Sua abertura denota os modelos e a influência da composição francesa da sua época.
Um compacto grupo de seis músicos, sob a condução de seu diretor, Franck-Emmanuel Comte, ao cravo, executou essas peças de maneira uniforme, dinâmica e leve, realçando as nuances da escrita orquestral. A presença do contratenor Xavier Sabata trouxe ao concerto as cores e os matizes vocais necessários para dar o sentido dramático que o personagem requer, especialmente em suas cenas de loucura e abandono.
Sabata ofereceu dois recitativos e árias do próprio Orlando Generoso, de Steffani: “A che ti serve Orlando” e a ária “In queste alma che langue, che geme”, plena de virtuosismo, seguida do recitativo “Che vidi! / Ch’ascoltai?” e da ária “Armi, stragi, vendetta, furore!”, da mesma obra, e o monólogo “Io dunque senz’armi”. Foi neste último que ele se mostrou não apenas um hábil intérprete, mas um artista comprometido em recriar e se envolver, como ator, com os sentimentos expressos pelo texto.
Continuou com uma boa execução da “Aria per le furie”, da ópera Angelica Vincitrice di Alcina (1716), de Johann Joseph Fux. Peça exigente, o intérprete a conduziu a bom termo por seu envolvimento como ator e pelo virtuosismo do seu explosivo desempenho vocal. As páginas de Fux ouvidas aqui ao vivo foram incluídas pela primeira vez em disco, de acordo com as anotações do próprio Comte no encarte da gravação. Sabata é um valioso intérprete, que mostrou segurança, cor e musicalidade nos amplos registros da sua extensão vocal. Sua interpretação das árias “Da che me volete” e “La bella mia nemica”, da ópera L’Angelica (1720), de Nicola Porpora, guiou o público por esse caminho de fúria, desolação e melancolia do personagem.

O compacto conjunto instrumental brilhou sozinho, oferecendo uma sentida execução da Sérénade, K 352, II. Gigue (1701), de Johann Joseph Fux, assim como uma vivaz execução do Concerto per Archi e Cembalo in Sol minore”, RV 156, de Antonio Vivaldi, e a dinâmica Sinfonia, HWV 61, do oratório Belshazzar, de Händel, na qual se percebeu de imediato um nível superlativo de escrita musical. Os músicos deram bom suporte musical ao canto de Sabata, criando um quadro ideal para a sua voz e um vínculo entre música e texto.
As interpretações culminantes do concerto vieram ao final, quando o contratenor ofereceu duas esplêndidas execuções: a ária “Fammi combattere” e o assombroso monólogo “Ah Stigie larve”, que é a Scena di Follia (ou loucura) da ópera Orlando, de Händel, autor no qual Sabata pode ser considerado um especialista e em cujas obras tive a sorte de ouvi-lo em anos recentes, dando vida ao personagem Ottone em Agrippina, e ao papel principal de Rinaldo.
Assim concluiu-se um evento único, que superou as expectativas do público presente, que por sua vez se deparou com obras pouco conhecidas que o satisfizeram amplamente. Não se pode deixar de reconhecer o trabalho do Festival Internacional de Música Sacra de Bogotá e do Teatro Mayor Julio Mario Santo Domingo em suas acertadas escolhas de programas de música antiga, como os que presenciei na edição do ano passado, com The Fairy Queen, de Purcell, com o conhecido conjunto francês Les Arts Florissants, e com o Ensamble Barroco de Bogotá e o contratenor alemão Andreas Scholl.
Fotos: Juan Diego Castillo / Teatro Mayor Julio Mario Santo Domingo.

Crítico musical, contribui com a revista eletrônica mexicana Pro Ópera e com o website italiano Gli Amici della Musica. Ramón Jacques também mantém o blog Una Voce Poco Fa.
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