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No Theatro São Pedro, uma opereta fluente; no TMRJ, um balé de altos e baixos

“O Morcego”, de Johann Strauss II, divertiu o público em São Paulo, enquanto “Romeu e Julieta”, de Prokofiev, pecou no Rio pelo excesso de “alívios cômicos”.

Estreada em Viena, em 1874, Die Fledermaus (O Morcego), de Johann Strauss II, é considerada uma das grandes operetas do repertório. Obra-prima do compositor no gênero, ela combina o brilho das valsas vienenses com uma trama cômica repleta de disfarces, enganos e sátira social.

O libreto de Carl Haffner e Richard Genée, inspirado na peça francesa Le Réveillon, de Meilhac e Halévy (por acaso, os libretistas da Carmen, de Bizet), apresenta uma trama de equívocos, desencontros e revelações, na qual o Dr. Falke prega uma peça no seu amigo – e protagonista masculino – Gabriel von Eisenstein, como vingança por uma situação ridícula por que este lhe fez passar tempos atrás. Tudo em meio a situações hilárias. Musicalmente, Strauss II utiliza valsas, polcas e marchas em uma partitura ao mesmo tempo vibrante e elegante. A abertura é famosíssima, e os números musicais estão repletos de melodias cativantes e humor refinado.

Segunda das duas produções líricas que, tradicionalmente, o Theatro São Pedro, de São Paulo, dedica à sua Academia de Ópera e à sua Orquestra Jovem, O Morcego subiu ao palco da casa da Barra Funda entre os dias 08 e 11 de outubro. Em sua montagem, o diretor Ronaldo Zero optou por realizar alguns cortes para deixar a ação mais fluida, permitindo a apresentação da obra sem nenhum intervalo. Tal opção teria merecido deste autor um nariz torcido se tivesse sido realizada na programação regular e profissional da casa, mas, no âmbito de um espetáculo voltado para jovens artistas, entendo o expediente como aceitável. E, de toda forma, os cortes foram bem realizados, sem prejudicar o desenvolvimento da trama, ao mesmo tempo em que a deixaram bastante fluente. A direção de cena de Zero funcionou bem, com alguns dos solistas mostrando-se mais à vontade que outros, mas com a ação se desenvolvendo satisfatoriamente.

Fernanda França (Adele) e Camila Ceuta (Rosalinde)

A cenografia de Jonas Soares, simples, criativa e funcional, ambientou muito bem as cenas da opereta, complementada pelos corretos figurinos de Juliana Bertolini e pela boa iluminação de Nicolas Caratori. O cenário do segundo ato, a propósito, ao ambientar a festa dada pelo Príncile Orlofsky em uma boate, dialogou à perfeição com o noticiário político/policial dos últimos tempos (por meio do qual ficamos sabendo que o vigarista Daniel Vorcaro promoveu uma festa para “autoridades” do mais baixo nível exatamente em uma boate paulistana, reunindo 20 homens e 120 mulheres). Segundo eu soube depois da récita, não houve intenção proposital, uma vez que o projeto cênico da opereta foi apresentado antes das revelações a respeito da festança de corruptos e corruptores, mas, vamos combinar, o timing foi perfeito.

Na récita de 08 de outubro, quatro solistas (ex-integrantes da Academia de Ópera do Theatro São Pedro) apresentaram-se como convidados. O barítono Isaque Oliveira interpretou um Eisenstein seguro, destacando-se como o solista masculino mais bem preparado. O tenor Ernesto Borghi ofereceu um Alfred caricato, por vezes cantando mal de propósito para reforçar tal caricatura. O barítono Robert Willian compôs um Falke apenas correto, da mesma forma que o tenor Eder Rodrigues e seu Blind (o advogado de Eisenstein). Também convidado, o ator Maurício Gilherme deu vida a um excelente Frosch.

Dentre os atuais alunos da Academia de Ópera da casa, o principal destaque foi a soprano Fernanda França, que interpretou a empregada Adele com desenvoltura cênica e ótima voz. A artista, claro, ainda tem um percurso de evolução técnica pela frente, mas já demonstrou possuir uma matéria-prima vocal de qualidade, ao cantar com boa afinação, ótima agilidade e belos “saltos” nas passagens de coloratura.

Fernanda França (Adele)

Quem também apresentou boa voz e boa atuação foi o barítono Daniel Luiz, intérprete de Frank, o diretor da prisão. De modo geral, a soprano Camila Ceuta interpretou bem Rosalinde, ainda que nem todos os seus agudos tenham sido perfeitos, e as passagens mais ágeis nem sempre tenham sido totalmente audíveis. A mezzosoprano Anita Andreotti interpretou um razoável Príncipe Orlofsky (e aqui o visagismo de Elis de Souza deixou a desejar), assim como a também mezzo Paula Uzeda e sua Ida.

Completaram o elenco: Duda Espírito Santo (Felicita), Elouise Miranda (Faustini), Thainá Biasi (Minnie), Marília Carvalho (Melanie), Ana Luísa Melo (Natalie), Yara Lucia Terra (Silvia), Camila Lohmann (Hermini) e Sergio Cardonha Junior (Ali-Bey).

Isaque Oliveira (Eisenstein) e Daniel Luiz (Frank)

Bem preparado por Bruno Costa, o Coro cumpriu bem as suas partes e se movimentou adequadamente. E a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro, ainda que com algumas imprecisões e nem sempre com a melhor sonoridade, respondeu bem à condução de Priscila Bomfim, que por sua vez contribuiu com a sua direção musical para a já mencionada boa fluência do espetáculo.


Cena do casamento, com Frei Lourenço (Alysson Trindade), o casal protagonista e três parcas

No sábado, 10 de outubro, assisti no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a uma das apresentações do balé Romeu e Julieta, com música de Sergei Prokofiev e atuação do Ballet do Theatro Municipal. No fim de fevereiro, quando divulgou a sua temporada completa para este ano, o TMRJ informou que esta montagem estaria a cargo do coreógrafo Reginaldo Oliveira, responsável pela montagem de Frida em 2025. Fiquei empolgado, porque Frida tinha sido um dos melhores espetáculos (entre óperas, balés e concertos) a que assisti no ano passado. De lá para cá, se houve alguma justificativa oficial da casa para a substituição do coreógrafo, não vi/li em lugar nenhum.

Fato é que a produção que ficou em cartaz por apenas cinco apresentações contou com direção, concepção e coreografia de Luiz Fernando Bongiovanni, que apostou bastante em “alívios cômicos” para a trágica história dos amantes de Verona. Em seu texto no programa de sala, Bongiovanni explica: “Nesta versão, procuramos trazer os personagens para mais perto de nós. O humor aparece como uma forma de aliviar a atmosfera de tensão que se anuncia desde os primeiros acontecimentos. Mais do que dois protagonistas idealizados e distantes, vemos jovens que poderiam pertencer ao nosso tempo. Essa aproximação nos permite perceber o quanto a rivalidade entre Capuletos e Montéquios contribui para a tragédia final”.

Moisés Pepe (Ama) e Márcia Jaqueline (Julieta)

O problema é que os tais momentos de humor passaram da conta, especialmente na primeira metade do espetáculo, e foi-me impossível não lembrar de outras “gracinhas” inseridas, há não muito tempo, em uma ópera baseada em Shakespeare: aqueles vídeos ridículos e imbecilizantes utilizados na produção do ano passado do Theatro Municipal de São Paulo para a ópera Macbeth, de Verdi.

Se a inserção coreográfica jocosa da primeira entrada da ama de Julieta funcionou bem, a insistência no quase protagonismo desta personagem restou excessiva, da mesma forma que a interação entre os bailarinos e a plateia pareceu sem função dramática justificável, e o fato de alguns personagens falarem pode ter deixado transparecer certa insegurança na eficácia das coreografias. E já que falamos em Macbeth, a presença de três parcas, como se estivessem ali para induzir a tragédia, fez pouco sentido em uma obra na qual não há qualquer referência ao sobrenatural.

Tais problemas de natureza dramática foram uma pena, porque, de resto, o espetáculo se mostrou bem realizado e visualmente bastante atraente – condição devida, sobretudo, à excelente iluminação de Ana Luzia de Simoni, que valorizou bastante a cenografia de Renato Theobaldo e os figurinos irregulares de Marilda Fontes.

Assim, na primeira metade, salvaram-se as cenas entre o casal protagonista; e, na segunda parte, logo após a cena inicial da ama, o espetáculo torna-se bem mais envolvente e com boas soluções, como nas cenas com participação de Frei Lourenço e na grande e intensa cena derradeira, com a morte dos amantes.

Cícero Gomes (Romeu) e Márcia Jaqueline (Julieta)

Merecem destaque as excelentes atuações dos primeiros-bailarinos Márcia Jaqueline (Julieta) e Cícero Gomes (Romeu), de Alysson Trindade (Frei Lourenço), de Tábata Salles (Senhora Capuleto) e de Moisés Pepe (Ama), ressalvando, em relação a este último, que o problema da personagem se deveu bem mais à concepção que à execução por parte do artista.

A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, sob a regência de Tobias Volkmann, apresentou-se digna ao abordar a nada fácil partitura de Prokofiev. O conjunto, se não foi perfeito, foi honesto, o que já é bastante coisa em sua fase atual.

No saldo final, entendo que os acertos da produção compensaram os seus equívocos, mesmo que um “diabinho”, daqueles de desenho animado, insista em soprar no meu ouvido: “como teria sido o Romeu e Julieta de Reginaldo Oliveira”?


Fotos de “O Morcego”: Íriz Zanetti (na foto principal, o coro e o ambiente do segundo ato).
Fotos de “Romeu e Julieta”: Daniel Ebendinger.


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