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“Réquiem” de Verdi, uma contemplação da existência

Matheus Alencar analisa o concerto que marcou a estreia de Fabio Mechetti como diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo. Entre os solistas, o destaque foi o tenor Matheus Pompeu.

O biógrafo Charles Osborne1 narra como Giuseppe Verdi ficou profundamente comovido ao saber da morte do autor italiano Alessandro Manzoni. Poeta, romancista e político, sua obra mais memorável foi certamente Os Noivos (I Promessi Sposi), de 1827. Para Verdi, o romancista era um herói. Tanto que declarou a Giulio Ricordi que não teria forças para ir até Milão participar do funeral: “Em breve, irei sozinho, sem ser visto, visitar seu túmulo e talvez propor alguma forma de honrar a sua memória”. Assim fez o compositor quatro dias depois do velório.

Imediatamente, Verdi propôs à prefeitura de Milão a composição da missa dos mortos em honra ao grande escritor. Devido ao evento do funeral de Manzoni e do luto que se estendia por toda a Itália, o prefeito de Milão aceitou a proposta do compositor e garantiu que os custos da composição e performance seriam patrocinados pela cidade.

As ideias liberais de Manzoni, no entanto, não agradavam à Igreja Católica, que o considerava um mau católico cujos livros continham ideias perigosas, “como um veneno” para os seus leitores. Já Verdi era um ateu cujos momentos mais contemplativos, segundo Osborne, levavam-no a um estágio de agnosticismo, mas sempre resistente às organizações religiosas. Ainda assim, a sua decisão de honrar a memória de Manzoni foi compor uma missa de Réquiem, conforme a tradição e o texto católicos.

Após o grande sucesso da sua Aida, a composição do Réquiem, não por acaso, associou-se às grandes vozes que originaram os personagens da ópera egípcia. Como o compositor operístico consagrado que era, Verdi lidou com o texto da missa dos mortos com uma grande dramaticidade, da mesma forma que lidara com cenas de cunho religioso presente em suas óperas, como Nabucco ou Don Carlos. Segundo o biógrafo, a missa foi descrita como “uma ópera cujo libreto não pôde ser contestado pelo compositor”, referindo-se às interferências comuns de Verdi no processo de escrita e edição dos libretos das suas óperas. Em junho de 1873, cerca de um mês após o falecimento de Manzoni, Verdi iniciou a composição dedicada de seu Réquiem, aproveitando o trecho Libera me composto, cinco anos antes, para a missa que seria dedicada ao compositor Gioachino Rossini.

Em 22 de maio de 1874, no primeiro aniversário da morte de Alessandro Manzoni, estreava a sua Messa da Requiem (Missa de Réquiem), regida pelo próprio compositor, na Igreja de San Marco, em Milão.

As críticas foram variadas, alguns afirmavam se tratar da maior peça religiosa composta desde o Réquiem mozartiano. Outros declararam que era uma obra inteira sem melodias memoráveis, com uma “gritaria” no Dies irae e uma vociferação canina na fuga Libera me. Seja como for, mais de 150 anos se passaram e o Réquiem verdiano se mantém como uma obra de grande sucesso, cuja intensidade e vigor transmitem uma pluralidade de emoções contidas em sua composição. Desde o horror do Dies irae ao desespero do Rex tremendae, da prece solene do Agnus dei à súplica voraz do Libera me, a missa dos mortos de Verdi nos leva à contemplação da existência, erguendo uma prece não somente pelos mortos, mas também pelos vivos. Inevitavelmente, a meditação proposta pelo compositor em sua obra me faz recordar do texto bíblico do Eclesiastes, que trata da casa de luto: “[…] naquela está o fim de todos os homens; e os vivos o aplicam ao seu coração”.

No Theatro Municipal de São Paulo, o Réquiem de Verdi foi escolhido para a estreia de Fabio Mechetti na posição de diretor artístico da casa. Na apresentação do dia 24 de outubro, a regência do maestro foi mais do que correta: vigorosa e apaixonada! Mechetti guiou a Orquestra Sinfônica Municipal à sua máxima potência. O coro, composto pelo Coro Lírico Municipal (preparação de Hernán Sánchez Arteaga) e o Coral Paulistano (Maíra Ferreira), executou com excelência a desafiadora música vocal de Verdi, respeitando as suas dinâmicas e com uma incrível precisão, especialmente nas fugas. Com um destaque para a seção Libera me, em que as vozes mostraram uma potência constante e incansável. Se tivesse que mencionar um pequeno ponto que poderia ser melhorado, diria que senti falta de um ataque mais preciso dos tenores e dos baixos na primeira frase do Dies irae, que prepara, com o cromatismo ascendente, a explosão que talvez seja a mais marcante da parte coral da obra. Apenas um detalhe, contudo, que em nada comprometeu a excelente performance.

Os solistas apresentaram uma performance correta e satisfatória. A soprano colombiana Betty Garcés, ainda que tenha deixado um pouco a desejar nos trechos mais calados e pianos, apresentou-se com um vigor incansável do início ao fim, com destaque ao movimento Libera me, que conclui a obra.

A mezzosoprano Ana Lucia Benedetti apresentou um desempenho satisfatório, especialmente em seus registros médios e agudos. Senti falta de mais volume em seu registro grave, sobretudo na primeira metade da performance. Considerando que se trata de uma obra bastante trabalhosa para a parte, no entanto, é inegável a enorme segurança e precisão da cantora em suas intervenções.

O baixo Luiz-Ottavio Faria apresentou um bom desempenho, ainda que tenha mostrado certa insegurança em seu primeiro solo, Mors stupebit et natura. Seu destaque foi a rendição de Confutatis maledictis, momento em que percebi uma constância entre graves e agudos. Sua voz, no entanto, pareceu-me um pouco cansada, o que prejudicou a sua projeção, especialmente nos trechos conjuntos.

Sem dúvidas, o grande destaque da noite foi o tenor Matheus Pompeu. Apresentou precisão, segurança e conforto ao longo de toda a récita. Seus agudos, médios e graves foram sempre sonoros, com pianíssimos bem projetados e uma musicalidade excepcional. Seu principal destaque certamente foi o solo Ingemisco, em que apresentou um canto recheado de dramaticidade e emoção.

Em um panorama geral, a apresentação do Réquiem foi uma das experiências mais satisfatórias que tive na casa nos últimos anos. Toda a equipe se mostrou competente para encarar uma obra complexa e exigente. Espero que, nas próximas temporadas, o querido Giuseppe Verdi seja sempre uma escolha constante (além dos títulos mais “óbvios”), para mais apresentações vigorosas e apaixonantes como essa a que tive o prazer de assistir.


1- Osborne, Charles. Verdi: A Life in the Theatre. London: Weidenfeld and Nicolson, 1987.


Foto: divulgação (maestro Fabio Mechetti).

Nota do Editor: até o momento da publicação desta crítica, o TMSP não disponibilizou fotos oficiais do concerto. Caso o faça, fotos serão inseridas posteriormente nesta publicação.


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