Graciosa comicidade vespertina num sábado carioca
Michele Menezes e Flávio Mello destacaram-se na montagem da ópera de Donizetti.
Il Campanello (A Campainha), 1836
Ópera em ato único
Música e libreto: Gaetano Donizetti (1797-1848)
Base do libreto: La sonnette de la nuit (A Campainha da noite), vaudeville di Léon Lévy Brunswick, Mathieu-Barthélemy Troin e Victor Lhérie
Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Salão Assyrio)
19 de setembro de 2026
Direção musical: Felipe Prazeres
Direção cênica: Pedro Rothe
Cenografia: Victor Aragão
Figurinos: Renan Garcia
Iluminação: Chabu
Elenco:
Don Annibale: Patrick Oliveira, baixo
Enrico: Flávio Mello, barítono
Serafina: Michele Menezes, soprano
Mamma Rosa: Eliane Lavigne, soprano
Spiridione: Jessé Bueno, tenor
Coro do Theatro Municipal
Ensemble OSTM
Em mais uma apresentação do IV Festival Oficina de Ópera, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro levou ao palco Il campanello, de Gaetano Donizetti, em segunda récita no último sábado, dia 20 de setembro, no Salão Assyrio, em agradável matinê às 16h. Em se tratando da última ópera apresentada no festival, contou o público com a possibilidade de acessar uma obra cômica, pouco encenada aqui no Rio de Janeiro. Em meus quase 30 anos de frequência ativa ao Theatro Municipal, não me recordava de nenhuma montagem. Segundo o palestrante que trouxera alguns informes antes da apresentação, a ópera foi encenada na década de 90, provavelmente no início ou meio. Com isso, posso sugerir que o interesse pela obra justificaria alta demanda, o que pôde ser confirmado previamente ao entrar no site de compra de ingressos e encontrar tudo absolutamente esgotado! Na realidade, no entanto, tivemos muitas cadeiras vazias, com público reduzido em uma área relativamente pequena da estrutura do teatro.
Ao entrar no Salão Assyrio, o público pôde se deparar com o cenário já exposto, muito atraente, bonito e, como se percebeu no desenvolvimento da récita, bastante funcional à atividade vocal. Tudo funcionou na simplicidade, inclusive com a movimentação dos contrarregras no decorrer da ação, sem proporcionar qualquer dano à apresentação. Aliás, com relação a esse ponto, é interessante destacar a existência de uma brincadeira proposta por Donizetti ao utilizar a ópera para falar da própria ópera, uma espécie de metateatro. Um dos personagens de Enrico, constituído para importunar a noite de núpcias entre Annibale e Serafina, foi o cantor – escalado para Il Campanello – que perdeu a voz, e que demandava as pastilhas milagrosas desenvolvidas pelo boticário. Por conta desse dado, a montagem atual preferiu usar a presença de personagens eventuais em cena, como se fossem contrarregras, usando uma claquete, vara e microfone para captação do som ou mesmo apenas um fone, acentuando o caráter jocoso de um teatro que usa o teatro para falar sobre si.
Algo que estava além do teatro, mas também mostra uma realidade da atividade cênica, diz respeito ao aviso antes da apresentação, informando que Eliane Lavigne estava fortemente gripada e, ainda assim, sua presença estava assegurada naquela récita em respeito ao público. De fato, o que se notou, foi uma Mamma Rosa pouco articulada, com uma afinação periclitante, mas com alguma melhora em determinados trechos.
Para Don Annibale, interpretado por Patrick Oliveira, viu-se uma dificuldade de presença em cena, dando certa sensação de insegurança. Parecia haver um estranhamento do espaço, com necessidade de uma voz gritada que pudesse proporcionar maior atratividade ao público, talvez – aqui conjecturando – por haver uma crença de que o dramma giocoso pudesse permitir a ausência de certos elementos necessários à linguagem musical. Com isso, notava-se a carência de musicalidade em grande parte da apresentação, sem frases musicais constituídas e beleza na interpretação. Até mesmo as gestualidades da atuação estavam rígidas, sem naturalidade, tudo com pouco brilho. Já em Bella cosa, amici cari, notava-se afinação periclitante, prejudicada por um andamento um tanto lento à apresentação do personagem. Houve melhora à frente, mas nada significativo.

De Spiridione, representado por Jessé Bueno, o que se viu foi uma interpretação segura, justa e pontual às solicitações do texto musical. O papel foi defendido adequadamente, com boa afinação e presença cênica.
A sensação de ópera iniciada ocorreu com Serafina e Enrico, sem dúvida os melhores da tarde. O dueto amoroso Non fugir, t’arresta ingrata foi extremamente sensível, com excelente domínio cênico e vocal. Michele Menezes demonstrou técnica apurada em seu papel, com ótima projeção vocal, boa afinação e grande potencial a papéis dessa natureza. Sua leveza expressou devidamente a intenção esperada numa ópera cômica: caricatura, agilidade vocal e grande carisma.
Enrico, interpretado por Flávio Mello, foi de uma grande presença em toda a ópera. O sentido cômico dado ao personagem foi de relevante valia à récita, demonstrando plena afinidade ao papel. Sua atuação em Mesci, mesci, e sperda il vento foi sensacional, com excelente sustentação e emissão de voz, algo notório em todas as suas aparições. Em Mio Signore venerato, viu-se uma grande expressão de sensibilidade, permitindo ao público ouvir e admirar cada frase cantada. A meu ver, seu auge esteve nas farsas criadas para tentar impedir a noite de consumação do matrimônio entre Serafina e Don Annibale. Um forasteiro francês, um cantor de ópera sem voz e um velho doente: Flávio Mello soube dar cor e voz a cada um dos personagens, trazendo comicidade adequada à apresentação, com afinação justa, ainda que cada personagem exigisse um timbre diferente à intenção de trazer diferenciação às farsas.
Quanto ao Coro, pode-se dizer que atuou burocraticamente. Já no início, em Evviva Don Annibale, foi perceptível a dificuldade dos componentes em atingir uma sonoridade redonda, musical, em esforços exagerados para a propagação da música. Talvez a adequação ao espaço trouxesse uma letargia à heterogeneidade do som. No mais, as aparições foram medianas, sem grandes brilhantismos, ainda que em Mesci, mesci, e sperda il vento alguma beleza tenha sido extraída da peça.
Outro personagem ativo foi a campainha, apresentada já nos primeiros compassos da ópera e presente em tantos momentos, levando o público a uma expectativa muito agradável a respeito das cenas propostas, tudo conduzido pela segura regência de Felipe Prazeres. O Ensemble OSTM esteve bem, executando adequadamente o papel de acompanhar com volume controlado as propostas cênicas e cômicas do espetáculo. Talvez, em alguns trechos, um andamento mais rápido pudesse garantir maior expressividade da agilidade sugerida em uma ópera-bufa. No mais, as cordas mereciam frases mais bem trabalhadas e os metais precisariam de mais definição da sonoridade.

Tanto a cenografia (de Victor Aragão) quanto a indumentária (de Renan Garcia) atenderam adequadamente às propostas da direção cênica (de Pedro Rothe), contribuindo à caracterização cômica da obra, até com certa graciosidade. A iluminação (de Chabu) esteve bastante voltada à funcionalidade, sem grandes artes subjacentes.
Ao final, a vontade era continuar e assistir novamente, em um clima vespertino que sugere ao teatro mais óperas dessa natureza: palatável, curta, adequada à medida para fazer desse gênero algo mais corrente ao cotidiano carioca. Por falar em carioca, vi pessoas despojadas, ao típico modelo do Rio de Janeiro, o que me fez pensar que o universo operístico pode necessariamente prestar-se à identidade da cidade, sendo o Theatro Municipal do Rio de Janeiro propulsor dessa demanda.
Fotos: Daniel Ebendinger.

Leonardo Samu é formado em Letras pela UERJ, com mestrado e doutorado em língua portuguesa. Possui também graduação em Música (Piano) pela UFRJ. Atua como professor na cidade do Rio de Janeiro.
Descubra mais sobre Notas Musicais
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

