Ficção é ficção. Chamar uma história de história real é um erro, um desprezo para com a arte e a verdade, como acreditava o escritor russo-americano Vladimir Nabokov (1899-1977). Ainda assim, a vida imita a arte e vice-versa. É o caso, em particular, de Cavalleria Rusticana, ópera em um ato de Pietro Mascagni (1863-1945), última montagem da temporada de óperas que a Fundação Clóvis Salgado apresenta em 2025. Cavalleria Rusticana – ou Cavalheirismo Rústico, ou Honra Camponesa –, que estreou em 1890 no Teatro Costanzi, Roma, é frequentemente aplaudida por sua crua verdade. A música passional e a narrativa – que rejeita os temas históricos, míticos e grandiosos do Romantismo – exploram temas humanos como o amor, a paixão, a traição, o ciúme, a vingança e a honra lavada com sangue, no contexto rural siciliano.
Sim, a Sicília, berço da Máfia italiana e do seu código de honra assaz draconiano. Não por acaso, o Intermezzo da ópera se tornou muito popular e mundialmente famoso ao encerrar a belíssima, emocionante e dramática cena final do filme O Poderoso Chefão III, a sacrossanta trilogia sobre a Máfia de Francis Ford Coppola. Em uma versão brasileira, o libreto da ópera de Mascagni poderia ter sido escrito pelo brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980), mestre nos mesmos temas; no entanto é assinado por Giovanni Targioni-Tozzetti (1863-1934) e Guido Menasci (1867-1925), inspirado em um romance de Giovanni Verga (1840-1922).
Na nova versão apresentada no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes, a direção musical é Ligia Amadio, regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG). A concepção e a direção cênica, de Menelick de Carvalho. As apresentações acontecem neste começo de agosto, nos dias 06 (quarta-feira) e 08 (sexta-feira), às 20h; no dia 09 (sábado), às 19h; e no dia 10 (domingo), às 18h. Os ingressos têm preços populares. Além da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do Coral Lírico de Minas Gerais (CLMG), participam da montagem solistas como as sopranos Eiko Senda (Santuzza) e Sylvia Klein (Lola), a mezzosoprano Bárbara Brasil (Mamma Lucia), o tenor Matheus Pompeu (Turiddu) e o baixo-barítono Stephen Bronk (Alfio). O espetáculo tem direção-geral de Cláudia Malta.
No coração da ópera italiana
A trama se desenvolve em torno dos personagens Turiddu, um jovem que trai Santuzza com a sua antiga noiva, Lola, que agora está casada com Alfio. A tragédia acontece no vilarejo de Vizzini, em uma manhã de Páscoa. No triângulo amoroso, Turiddu, após uma campanha militar, volta ao povoado e se envolve com Lola, mulher de Alfio, deixando Santuzza inconsolável. Esta, com ciúme e desesperada, revela a Alfio a infidelidade da sua esposa, provocando um duelo entre os dois homens.
A obra se inscreve no movimento artístico do Verismo – de “vero”, verdade –, que busca representar o cotidiano das classes populares. A intriga tem o mérito de criar enorme tensão dramática. De volta à música, particularmente às passagens de Turiddu e de Santuzza, ela é passional e cativante, contribuindo para a atmosfera do drama.
Por tratar de temas como amor, ciúme e honra ferida, a trama da ópera é universal e, por isso, sempre conquistou grandes públicos deste a sua estreia romana, quando Mascagni voltou ao palco 43 vezes para agradecer os aplausos efusivos durante quase duas horas.
PROGRAMA

Cavalleria Rusticana
Ópera em ato único de Pietro Mascagni
Direção musical e regência: Ligia Amadio
Concepção e direção cênica: Menelick de Carvalho
Cenografia: William Rausch
Figurinos: Marcela Moreira
Iluminação: Régelles Queiróz
Preparação do Coral Lírico: Lucas Viana
Direção geral: Cláudia Malta
Elenco:
Santuzza: Eiko Senda. soprano
Lola: Sylvia Klein, soprano
Mamma Lucia: Bárbara Brasil, mezzosoprano
Turiddu: Matheus Pompeu, tenor
Alfio: Stephen Bronk, baixo-barítono
SERVIÇO
Récitas: 06 e 08 de agosto, quarta e sexta-feira, às 20h / 09 de agosto, sábado, às 19h / 10 de agosto, domingo, às 18h
Onde: Grande Teatro Cemig Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro, Belo Horizonte)
Classificação indicativa: 10 anos
Ingressos: R$ 60,00 (R$ 30,00 meia-entrada) / ingressos disponíveis na bilheteria do Palácio das Artes e na plataforma Eventim
Fotos: Guto Muniz.
Texto enviado pela Fundação Clóvis Salgado.






