Eiko Senda, Daniela Tabernig e Matheus Pompeu se destacaram em um espetáculo bem encenado e que contou com a regência sensível de Alessandro Sangiorgi.
Madama Butterfly (1904)
Ópera em três atos
Música: Giacomo Puccini (1858-1924)
Libreto: Luigi Illica (1857-1919) e Giuseppe Giacosa (1847-1906)
Base do libreto: Madame Butterfly, tragédia de David Belasco (1853-1931), por sua vez baseado no conto homônimo de John Luther Long (1861-1927).
Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 23 e 29 de novembro de 2025
Direção musical: Alessandro Sangiorgi
Direção cênica: Pedro Salazar
Cenografia: Renato Theobaldo
Figurinos: Marcelo Marques
Iluminação: Paulo Ornellas
Elenco:
Cio-Cio-San (Madama Butterfly): Eiko Senda (29) e Daniela Tabernig (23), sopranos
Pinkerton: Matheus Pompeu (29 e 23), tenor
Sharpless: Inácio de Nonno (29) e Santiago Villalba (23), barítonos
Suzuki: Luciana Bueno (29) e Lara Cavalcanti (23), mezzosoprani
Goro: Geilson Santos (29 e 23), tenor
Tio Bonzo: Murilo Neves (29) e Pedro Olivero (23), baixos
Kate Pinkerton: Mariana Gomes (29), soprano, e Carla Rizzi (23), mezzosoprano
Príncipe Yamadori: Fernando Lorenzo (29) e Flavio Mello (23), barítonos
Comissário Imperial: Flavio Mello (29) e Fernando Lorenzo (23), barítonos
Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal
Coro do Theatro Municipal (preparação: Cyrano Sales)
Neste domingo em que escrevo, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro encerra a sua temporada lírica de 2025 com a última récita de Madama Butterfly, uma das óperas mais populares de Giacomo Puccini. A trama da obra é bastante conhecida: iludida por Pinkerton, um oficial da marinha dos Estado Unidos de passagem pelo Japão, a gueixa Cio-Cio-San casa-se com ele. Pinkerton vai embora poucos dias depois do casamento, mas Cio-Cio-San, contra todas as probabilidades e desprezando os alertas daqueles à sua volta, espera pelo “marido” durante três anos. Quando ele finalmente regressa, está casado com a norte-americana Kate, aquela que considera a sua “verdadeira” esposa, direcionando a ação para o seu trágico desfecho.
Para quem quiser se aprofundar e entender melhor a ópera (e as suas ligações com a cultura e a história do Japão), recomendo as leituras do artigo do professor Sergio Casoy (que Notas Musicais publicou recentemente) e da conversa que Fabiana Crepaldi teve com a soprano japonesa Eiko Senda no começo do ano passado, por ocasião da apresentação da mesma ópera no TMSP, na qual ela nos esclarece muitas coisas que vemos no palco, mas que, por vezes, ou não entendemos direito, ou passam despercebidas).
Encenação eficiente

Em sua concepção, o encenador colombiano Pedro Salazar, que fez agora a sua estreia no TMRJ, optou por deslocar a ação para os anos 1950, pouco depois, portanto, do fim da Segunda Guerra Mundial e do lançamento da bomba atômica sobre a cidade de Nagasaki – exatamente aquela que é retratada na ópera. Tal transposição não prejudicou em nada o entendimento da obra. Vale a pena transcrever um trecho do texto do diretor no programa de sala:
“Após o bombardeio, Nagasaki foi destruída em 40%. O Japão, como nação, teria que passar por transformações políticas e sociais impostas pelos Estados Unidos. Uma nova constituição foi criada para guiar o país rumo à democracia ocidental, mas, acima de tudo, para pôr fim à vocação militarista do Japão, desmantelando completamente suas forças armadas e forçando a nação a renunciar para sempre a qualquer impulso bélico. O imperador, antes ungido com poder divino, foi forçado a abdicar e destituído de todo poder político. O povo, humilhado pela brutal presença americana, foi forçado a aceitar um novo rumo ditado por estrangeiros.
A presença americana no Japão do pós-guerra foi brutal. Há registros do uso excessivo de força contra a população feminina japonesa por soldados americanos, com relatos de estupros e abusos em números alarmantes. Nesse contexto, Cio Cio San, ao se casar com Pinkerton, não estava apenas se casando com um estrangeiro, mas com um inimigo, responsável pela humilhação de sua cultura e de sua nação, e agora um ocupante de seu território; um casamento baseado na necessidade de sobrevivência material em meio à precariedade da guerra”.
Para ambientar a ação, contribuiu bastante o bom cenário de Renato Theobaldo (ver foto principal), com a casinha simples da protagonista localizada em frente a um prédio de maior porte que deixava transparecer a destruição trazida pela guerra, com uma grande colina ao fundo e antigos postes de luz elétrica. No terceiro ato, foi estendida no fundo do palco, por trás da colina e representando o nascer do sol, aquela que me pareceu uma representação estilizada da Bandeira do Sol Nascente (não confundir com a bandeira nacional japonesa), que é uma espécie de símbolo da Força Marítima de Autodefesa do Japão.
Esta ambientação simples, mas eficiente, foi bastante enriquecida pela excelente luz de Paulo Ornellas, que trabalhou bem os contrastes, especialmente nas passagens do dia para a noite e vice-versa, alcançando belos efeitos. Os bons figurinos de Marcelo Marques cumpriram corretamente a sua função.

Assim, Pedro Salazar pôde trabalhar bem a movimentação dos solistas, bem como enfatizar, por meio do personagem Pinkerton, a sua visão a respeito da influência e da dominação americana no pós-guerra. Se o cônsul Sharpless ainda apresentava preocupações humanas, o Pinkerton do primeiro ato se mostrou aquilo que ele realmente é: um sujeito totalmente sem escrúpulos, que estava ali apenas para “usar” o seu novo “brinquedo” (que ele descartou na primeira oportunidade), e que não perdia uma chance de zombar de aspectos da cultura japonesa. Quando voltou ao palco no terceiro ato, o personagem foi mais uma vez muito bem retratado como um homem desprezível.
Menos criteriosas foram algumas entradas e saídas do coro. Com a casinha dos protagonistas no alto de uma colina, só havia um caminho pelo qual chegar e sair dali, mas o coro o fez por vários lugares. Um pecado menor, convenhamos, em meio a muitos acertos.
Regência tocante

Nas duas récitas às quais assisti, o Coro do Theatro Municipal, preparado por Cyrano Sales, apresentou um desempenho razoável, passando bem pelo célebre Coro a bocca chiusa que encerra o segundo ato.
No sábado, dia 29 de novembro, a soprano Eiko Senda ofereceu ao público a sua elogiada Cio-Cio-San (Madama Butterfly), com canto seguro e interpretação comovente, com ótimo rendimento em alguns dos momentos mais aguardados da ópera, como o dueto com o tenor, Bimba dagli occhi pieni di malia, a ária Un bel dì vedremo e toda a sequência final. Experiente no papel, a soprano transmitiu com precisão os sentimentos da sofrida gueixa.
O tenor Matheus Pompeu interpretou um excelente Pinkerton, com brilho, afinação precisa, agudos generosos e excelente projeção. O artista se esmerou em demonstrar a falta de caráter do personagem. Passagens como o já citado dueto com a soprano, a cena com o Cônsul no primeiro ato (Amore o grillo), e a arietta do ato final, Addio, fiorito asil, foram defendidas com voz impecável.

A mezzosoprano Luciana Bueno foi uma Suzuki convincente e com graves bem encaixados. O barítono Inácio de Nonno ofereceu uma boa performance cênica como o Cônsul Sharpless, mas a sua voz deixou a desejar, apresentando certo desgaste natural, principalmente no primeiro ato. O tenor Geilson Santos interpretou Goro, o casamenteiro, com desenvoltura cênica e voz razoável. Os três solistas citados neste parágrafo, em maior ou menor grau, sofreram com o volume excessivo da orquestra em algumas passagens.
Completaram o elenco, sem destaques positivos ou negativos, a soprano Mariana Gomes (Kate Pinkerton), os barítonos Fernando Lorenzo (Yamadori) e Flavio Mello (Comissário), e o baixo Murilo Neves (Tio Bonzo).

No domingo anterior, dia 23, Cio-Cio-San havia sido interpretada pela soprano argentina Daniela Tabernig, que também ofereceu uma boa performance como a protagonista, com ótima voz, sempre bem projetada. A ária Un bel dì vedremo recebeu interpretação justa. Se lhe faltou clareza na dicção em algumas frases, isso não chegou a ofuscar uma bela performance.
Na mesma ocasião, o barítono Santiago Villalba interpretou Sharpless com boa voz e boa presença, enquanto a mezzosoprano Lara Cavalcanti foi uma Suzuki não mais que razoável. Pinkerton e Goro foram interpretados pelos tenores Matheus Pompeu e Geilson Santos, para os quais mantenho os comentários supracitados (referentes à récita de 29/11).
A mezzo Carla Rizzi (Kate Pinkerton), o baixo Pedro Olivero (Tio Bonzo) e os barítonos Fernando Lorenzo e Flavio Mello (agora invertidos: o primeiro como Comissário, e o segundo como Yamadori) completaram o elenco.
Nas duas récitas, um destaque muito positivo foi a condução de Alessandro Sangiorgi à frente da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, especialmente no dia 29. O maestro italiano conseguiu extrair do conjunto uma sonoridade segura. Trabalhando muito bem a dinâmica, realçou nuances do tecido orquestral e alcançou um resultado geral sensível, tocante. Faltou ao regente, no entanto, controlar melhor o volume do conjunto em alguns momentos. Se, para os intérpretes dos dois protagonistas, isso não foi um problema, o restante do elenco se viu encoberto em algumas passagens pelo volume orquestral excessivo.
Participaram ainda da montagem os atores Ary Freitas, Thiago Magalhães, João Carlos Figueiras e Valentina Salacupe, e, em outras récitas, os cantores Miguel Geraldi (Pinkerton) e João Campelo (Goro).
Em resumo, Madama Butterfly fechou bem o ano lírico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ainda que sem a mesma empolgação que títulos como La Traviata e Rusalka despertaram, nesta mesma época, nos dois anos anteriores.
A lamentar, apenas, a utilização de sons gravados de pássaros no intermezzo que liga o segundo ato ao terceiro – provavelmente evocando um fato ocorrido na estreia mundial da ópera, em Milão (1904). Não sei de quem foi a ideia, mas, além de desnecessário, tal expediente ainda pareceu sugerir que a maravilhosa orquestração de Puccini não fosse suficiente para descrever em música o amanhecer do dia.
Nota do Autor: o maestro Sangiorgi, gentilmente, corrigiu a ignorância deste autor, informando que os sons de pássaros, previstos na partitura, foram executados ao vivo por um percussionista com um apito próprio.

Revitalização do palco
Em agosto de 2024, o Municipal do Rio havia anunciado um investimento de R$ 11 milhões para a reforma do seu palco principal e também para a melhoria da estrutura física do equipamento (relembre aqui).
Sem melhora aparente (a cortina principal do palco, por exemplo, continua “sumida” dos espetáculos da casa), Notas Musicais questionou a direção do TMRJ, via assessoria de imprensa, sobre a revitalização.
Presidente da casa, Clara Paulino respondeu que já foram realizadas “aquisição de piso flutuante, pintura das aéreas sociais, aquisição da cortina principal e nivelamento de piso”.
E esclareceu ainda que “apesar de já termos comprado o material e confeccionado a cortina principal, só podemos realizar os serviços em janeiro, quando não há programação”.
A conferir na abertura da próxima temporada.
Fotos: Daniel Ebendinger (na foto principal, visão geral do cenário da produção).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.





