“O ser humano é um abismo”

No centenário de Wozzeck, a Osesp apresenta um ótimo concerto cênico com a obra-prima de Berg.

Wozzeck (1925)
Ópera em três atos e 15 cenas
Música e Libreto: Alban Berg (1885-1935)
Libreto baseado em Woyzeck, de Georg Büchner (1813-1837)
Sala São Paulo, 06 de dezembro de 2025
Direção musical: Thierry Fischer
Direção cênica: André Heller-Lopes
Cenografia e luz: André Heller-Lopes
Wozzeck: Robin Adams, barítono
Marie: Astrid Kessler, soprano
Capitão: Thomas Ebenstein, tenor bufo
Doutor: Markus Hollop, baixo bufo
Andres: Jason Bridges, tenor
Tambor-mor: Robert Watson, tenor heroico
Margret: Luisa Francesconi, mezzosoprano
Primeiro artesão: Savio Sperandio, baixo
Segundo artesão: Michel de Souza, barítono
Bobo e Soldado: Jabez Lima, tenor
Filho de Wozzeck e Marie: Rafaela Sinhor, soprano
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo — Osesp
Coro e Coro Infantil da Osesp

O dia 14 de dezembro de 2025 marca o centenário da estreia de Wozzeck, de Alban Berg (1885-1935). Para lembrar a data, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) apresentou a ópera de 02 a 06 de dezembro, em versão semiencenada. Estive presente na última récita, no dia 06. O ótimo resultado alcançado só reforçou a importância de que a Osesp retome a saudável prática de, ao menos anualmente, levar a ópera à Sala São Paulo — a exemplo do que fazem as grandes orquestras, e do que a própria Osesp fazia sob a direção do maestro John Neschling.

Foi uma pena que tenha havido apenas três récitas, o mesmo número de concertos rotineiros. Os ingressos esgotaram-se rapidamente, a imprensa chegou a lembrar que uma saída era ver a transmissão ao vivo no YouTube — o que, convenhamos, é muito válido para vermos espetáculos que acontecem do outro lado do oceano, mas não se compara com a experiência de ver uma ópera ou um concerto ao vivo. Mesmo assim, contudo, havia muitos lugares vazios. No final do ano, é comum que os assinantes, envolvidos com outros compromissos, não compareçam e se esqueçam de devolver os seus ingressos ao Banco de Ingressos.

Isso indica que, no ano que vem, quando não haverá mais banco de ingressos, as cadeiras vazias serão presença constante e, pior ainda, quando houver concertos concorridos, os assinantes que não tiverem ingresso para aquele dia, sem poder recorrer ao banco, ficarão de fora, vendo pelo YouTube ou pedindo ingresso na porta. Ao encerrar essa prática que tem funcionado bem há mais de uma década, a Osesp trata os assinantes fiéis (que administram os seus ingressos de modo a não perdê-los) com o mesmo desprezo que merece aquela minoria que, simplesmente, não vai e não se importa.

Mas… voltemos à ópera!

De Woyzeck a Wozzeck

No dia 27 de agosto de 1824, a Marktplatz, em Leipzig, ficou lotada para um espetáculo com sabor medieval: a execução pública de um certo Johann Christian Woyzeck, em uma estrutura de quatro metros de altura para que todos pudessem ver a cabeça do condenado rolar. Nascido na mesma cidade em 1780, Woyzeck foi condenado após ter assassinado, com vários golpes de punhal, a sua amante — uma viúva que supostamente o estava traindo com os soldados. A imagem da execução, abaixo, não deixa dúvidas quanto à comoção popular causada pelo crime passional de Woyzeck.

Na verdade, o que fez o caso virar peça de teatro e, posteriormente, ópera, não foi a execução espetacular, mas o fato de, pela primeira vez na história, ter havido um processo criminal que buscou investigar as condições psicológicas do acusado. Como a defesa buscou a absolvição alegando a demência de Woyzeck, foi nomeado um médico perito para avaliar o caso. Como o leitor já deve imaginar por conta do desfecho, o perito não encontrou nada que lhe permitisse alegar que Woyzeck era demente.

O estudo clínico foi publicado em uma revista médica e, alguns anos depois, lido pelo escritor Georg Büchner (1813-1837), que estava estudando medicina. O caso Woyzeck inspirou Büchner a escrever a peça de teatro homônima, no entanto, em função da sua morte prematura, aos 23 anos, a peça ficou inacabada. O que o autor deixou foi um manuscrito difícil de se decifrar (que precisou, inclusive, de um tratamento químico para poder ser lido), contendo uma série de cenas independentes, cuja ordem não se podia determinar ao certo. Em função da dificuldade de ser lido, na primeira edição, publicada em 1879, o nome da obra foi grafado errado: Wozzeck em vez de Woyzek.

A peça — que conta a história de um soldado pobre, explorado por seu capitão, usado como cobaia para os experimentos de um médico e traído por Marie, sua companheira, com quem não era casado, mas tinha um filho “sem a bênção da Igreja” — foi ao palco em Munique, em 1913, ano do centenário do nascimento de Büchner. No ano seguinte, chegou a Viena, onde foi vista por Alban Berg, que, segundo uma testemunha, foi fortemente impactado pela obra e exclamou: “Alguém precisa colocar música nisso!”.

Berg começou a compor Wozzeck (na época, o nome da peça ainda não havia sido corrigido) no mesmo ano. Selecionou quinze cenas da peça de Büchner — de modo a concentrar a trama em um pequeno número de personagens —, estabeleceu uma ordem e agrupou-as em três atos com cinco cenas cada. Teve, contudo, que parar o trabalho para servir no exército Austro-húngaro durante a Primeira Guerra Mundial, e só retomou a composição em 1918, após ter experimentado, também ele, as mazelas da vida de um soldado.

Como bem definiu o crítico Christian Merlin no L’Avant-Scene Opéra nº 215, “Wozzeck é uma obra-prima única e paradoxal: a forma musical mais científica e elaborada posta a serviço do drama mais comovente e humano”. O racional e o emocional se fundem nessa obra que expõe, por meio da mais sofisticada forma musical, a crueldade da sociedade e o drama dos pobres e explorados.

A música de Berg combina o modernismo dodecafônico de Schönberg com um inevitável lirismo, sem o qual não haveria compaixão, não haveria espaço para a empatia. E Wozzeck — que, sim, acaba por cometer feminicídio — conquista a nossa empatia. Certamente Büchner, ao escrever a sua peça, se não partiu da tese da demência de Woyzeck, partiu, ao menos, da suposição de que a sua mente foi fortemente afetada pela sociedade na qual vivia. Em resumo, como Marie, Wozzeck é uma vítima da sociedade.

A Osesp e, ao fundo, a lua vermelha

Uma Ópera na Sala

À frente da Osesp, que abraçou com bravura e grande qualidade a desafiadora partitura de Berg, o maestro Thierry Fischer ressaltou os momentos mais duros da obra, mas o fez sem negligenciar as cenas mais líricas e delicadas. Foi uma das grandes apresentações da orquestra no ano. Também o Coro da Osesp e o Coro Infantil da Osesp tiveram um ótimo desempenho.

Aos cantores estrangeiros, somaram-se alguns brasileiros, dentre os quais merecem destaque o Jovem Artesão de Michel de Souza e a Margret de Luisa Francesconi.  

O baixo alemão Markus Hollop e o tenor americano Robert Watson, respectivamente o Doutor e o Tambor-mor, ambos sem voz, praticamente inaudíveis, foram os pontos negativos da tarde. E é uma pena, em primeiro lugar, porque perdemos dois importantes caracteres da obra. O primeiro, um baixo bufo que representa o médico-cientista inescrupuloso do início do século passado, que pouco se importava com as consequências que as suas experiências poderiam trazer a seres humanos “descartáveis”, como o soldado pobre Wozzeck ou os judeus presos em campos de concentração.

No caso do Tambor-mor, perdemos o tenor heroico, o soldado viril, aquele que se diz “homem de verdade” e se considera o oposto de Wozzeck. O desempenho de Watson foi uma surpresa, visto que ele está fazendo uma carreira importante na Europa: já cantou, por exemplo, Siegmund na Valquíria da Staatsoper de Berlim, tanto sob a regência de Christian Thielemann (em 2022), quanto de Philippe Jordan (em 2024). Dava, pois, para esperar bem mais dele!

Felizmente, os outros tenores fizeram um bom trabalho. Saiu-se bem, embora sem grande brilho, o suíço-americano Jabson Bridges como Andres, mas quem merece destaque entre os tenores é o austríaco Thomas Ebenstein (membro do elenco estável da Staatsoper de Viena), intérprete do Capitão. Ebenstein foi muito bem como esse tenor bufo, cuja voz tem que escorregar até o agudo, explorando todo o colorido e a flexibilidade da voz, de modo a retratar um autoritarismo caricato, ridículo.

Thomas Ebenstein
Robin Adams e Astrid Kessler

Como Marie, a jovem e promissora soprano alemã Astrid Kessler ressaltou as nuances dessa personagem que tem um forte desejo de exercer a sua feminilidade e padece sob o peso da culpa. A voz de Kessler soa com facilidade na região aguda, sendo, por vezes, encoberta pela orquestra nos médios e graves. Mesmo assim, Kessler enfrentou muito bem a grande extensão vocal e os saltos que caracterizam a difícil linha da sua personagem.

Que voz tem o barítono inglês Robin Adams, intérprete de Wozzeck! Embora tenha sido anunciado que Adams estava com faringite, sua voz soou limpa, forte, imensa. Não havia chance de ele ser encoberto pela orquestra ou, pior ainda, pela ruidosa ventilação da iluminação usada em cena. Confesso que é muito prazeroso ouvir uma voz dessas. A lamentar-se, apenas, que Adams tenha privilegiado, em sua interpretação, um Wozzeck imponente, forte e revoltado, em detrimento do lado frágil desse personagem pobre e oprimido.

Rafaela Sinhor

Com um pequeno cenário posicionado na parte frontal do palco, que contava com um piso espelhado delimitado por luzes de led e alguns objetos de cena, a excelente direção cênica de André Heller-Lopes mostrou o potencial de uma ópera semiencenada nas mãos de um diretor inteligente. Do lado direito, uma cadeira de barbeiro em que, na primeira cena, o Capitão sentou-se enquanto Wozzeck lhe fazia a barba. Depois, a cadeira se tornou um objeto da casa de Marie, onde ela brincava com a criança. Do outro lado, um cavalinho de pau usado pelo filho de Marie e Wozzeck — que na produção da Osesp virou filha e foi interpretada com sensibilidade por Rafaela Sinhor. Entre esses dois polos, algumas cadeiras de madeira. Ao fundo, projetada na parede, a lua, vermelha “como um ferro ensanguentado”, dava o tom trágico.

O desenho de luz, também de Heller-Lopes, explorou todas as possibilidades da iluminação da Sala. Foi em Wozzeck que essa antiga frequentadora descobriu que a luz das lâmpadas que iluminam o palco pode mudar de temperatura. Ao fundo, a luz vermelha dialogava com Marie, vestida com um vestido vermelho leve e esvoaçante — e esse vermelho não representava apenas o sangue que haveria de correr, mas a paixão, a boca vermelha de Marie. Esse vermelho contrastava com um azul frio, noturno.

O Coro Infantil e Rafaela Sinhor no cavalinho

Se a direção de atores foi, o tempo todo, excelente e indispensável para a fruição do espetáculo, na cena final essa direção mirou, em cheio, os nossos corações. É que não há nada pior, nem mesmo o violento feminicídio, que a cena final de Wozzeck, especialmente com a delicadeza e naturalidade com que foi tratada. Após a morte de Marie, crianças da vizinhança riem do seu filho, agora órfão, e correm para ver a cena do feminicídio — “Venham ver!”. O menino, pequeno demais para entender o que se passava, hesita, mas resolve segui-los, brincando com o seu cavalinho de pau: “Hopp, hopp, hopp…”.

No final de semana, enquanto assistíamos a Wozzeck, São Paulo se preparava para uma manifestação contra o feminicídio. Dessa forma, foi pertinente a abordagem do tema, ainda mais em uma obra que não cai no simplismo maniqueísta, mas aborda toda a complexidade da questão social. Nada é mais forte, no entanto, do que a cena final, que, mediante os risos e a espontaneidade das crianças, tira-nos toda e qualquer esperança na humanidade. De forma cruelmente poética, a direção de Heller-Lopes conseguiu acentuar ainda mais o efeito dessa cena.

Como diz Wozzeck, “o ser humano é um abismo, a gente fica tonto quando olha para o fundo”.

André Heller-Lopes, Thierry Fischer e o elenco de Wozzeck

Fotos: Íris Zanetti / Osesp


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8 comentários

  1. Wozzeck mostra que a OSESP precisa e tem que fazer óperas em seu palco, apenas sugiro que sejam feitas pelo menos 06 apresentações ( duas semanas) gostaria de ter visto Wozzeck mais vezes, vi apenas duas vezes, pois ao mesmo tempo no Theatro Mvnicipal tínhamos Les Indes Galantes que vi apenas quatro vezes, ambas as óperas mereciam ter sido vistas mais vezes….Acredito que a OSESP deveria focar em títulos de operas menos populares e de maior complexidade musical. Acredito que na programação da OSESP cabem 02 óperas por ano.

  2. Em relação a nova política da OSESP a Fabiana disse de forma muito educada que na prática o banco de ingressos foi destruído. Infelizmente teremos ingressos esgotados com sala vazia e sem fila da hora, em suma, uma péssima iniciativa que a todos prejudica

  3. Como sempre, leio e adoro suas críticas musicais, aguardando para a leitura após os espetáculos que vejo.
    Também me encantei com a voz possante do Robin Adams. Fui a duas representações, para tentar captar melhor toda aquela riqueza. Não resisti e fui na conversa sobre a Ópera na sala Motiva na mesma semana, e confesso que o texto elaborado por Wladimir Saflate sobre a opera, foi excelente. Disse que vai sair este texto em livro, algo imperdível.
    Só comento ainda, que em geral vemos a loucura de Woyzeck sendo comentada de forma sútil em relação aos experimentos à que ele estava submetido, algo que hoje sabemos que alimentos podem ter reações diversas nos psiquismos, de modo a levar a transtornos. E na próxima vez que for ver esta opera tentarei ver se Woyzeck é valente como este que vimos, pois as duas vezes anteriores vistas em outras salas, nem notei muito este importante detalhe. Daí a importância destas leituras como a sua.

  4. Também concordo que terminar com o banco de ingressos é uma perda lamentável. Sempre depositei o que não pude ir, raras ocasiões, mas usei bem meus créditos convidando amigos, o que acaba por trazer mais diversidade de frequentadores à sala.

  5. Olá Fabiana, bom dia. Não procede a informação de que não haverá banco de ingressos em 2026. O banco continuará existindo com a diferença de que, para o próximo ano, as devoluções de ingressos terão de ser feitas com 48h de antecedência (com algumas exceções), e a compra de um novo ingresso com o crédito não depende da desistência de outro assinante. Além disso, o crédito poderá ser usado pra qualquer atividade da Fundação Osesp, entre concertos sinfônicos, recitais, corais, de câmara e Encontros Históricos, entre outros. Um abraço!

    1. Bom dia, Fabio.
      Até onde entendo, um banco de ingressos pressupôe depósito e saque de ingressos. Isso acontece hoje. No ano que vem haverá um saldo para ser utilizado na compra de ingressos. Isso deixa, pois, de ser um banco de ingressos. No ano que vem, quando eu quiser mudar o meu concerto de quinta para sábado, como fiz tantas vezes, ou resgatar ingressos para eventos esgotados, vou pedir para você me ensinar como fazer isso no novo “banco”.
      Mas aproveito para fazer uma pergunta importante e na qual ninguém ainda tocou: haverá taxa de conveniência para compra online de ingresso com o crédito gerado no “banco”?
      Abraço.

      1. Oi Fabiana, obrigado pela resposta. Acredito que você irá conseguir, sem dificuldades, mudar um concerto de quinta para sábado na próxima Temporada. Se enfrentar dificuldades, a equipe de Assinaturas continuará à disposição para ajudar. Em relação à sua pergunta, você poderia enviá-la para o e-mail ? Assim encaminho ao setor responsável. Obrigado.

        1. Obrigada, Fabio.

          Publico, abaixo, a resposta recebida, confirmando que o que haverá na próxima temporada não será um banco de ingressos, mas compras avulsas, com taxa de conveniência, usando os créditos gerados pela devolução de ingressos.

          A compra de ingressos usando os créditos é como uma compra avulsa, ela possui taxa de conveniência (de 20%) e a devolução fica sob os critérios do Código de Defesa do Consumidor. Segue, abaixo, o texto do Regulamento de Assinaturas:

          Utilização dos créditos

          O crédito gerado em caso de devoluções, disponível na área logada do Assinante, poderá ser utilizado, a qualquer momento, para a aquisição de ingressos de outros concertos realizados pela Fundação Osesp no Complexo Cultural Júlio Prestes durante o ano vigente, conforme disponibilidade de ingressos livres no mapa de assentos.

          Caso o novo ingresso tenha valor superior ao crédito disponível, basta complementar a diferença no momento da aquisição. Em caso de valor inferior, o saldo remanescente permanecerá na conta do Assinante para utilização na compra de ingressos avulsos durante o ano vigente.

          Caso o Assinante precise devolver o ingresso comprado utilizando os créditos disponíveis em sua conta, será considerada a Política de Cancelamento descrita abaixo.

          Direito de Arrependimento

          Conforme previsto no Código de Defesa do Consumidor (art. 49 da Lei federal nº 8.078/90), o consumidor pode desistir da compra realizada fora do estabelecimento comercial (por internet ou telefone) no prazo de 7 (sete) dias corridos, a contar da data da confirmação da compra e até 24h antes do início do concerto.

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