“Suor Angelica”, de Puccini, no Teatro de Santa Isabel, no Recife
A presença feminina é exclusiva, da concepção às coxias e ao palco na adaptação de uma ópera dedicada a provocar reflexões sobre dilemas sociais de ontem e de hoje comuns às mulheres. A versão recifense de Suor Angelica, ópera de Giacomo Puccini, mantém elenco integralmente feminino para transplantar à contemporaneidade questões levantadas pela obra nas primeiras décadas do século passado. A montagem é encenada por cantoras líricas e estudantes de canto da capital e da região metropolitana do Recife em três apresentações realizadas nos dias 25, 26 e 27 de setembro, no Teatro de Santa Isabel, na capital pernambucana, com entrada gratuita.
A trama acompanha o enclausuramento forçado de Angelica (Karla Karolla e Yane Ramalho, que se revezam) em um convento, depois de uma gravidez fora do casamento e repudiada pela família. E, a partir do conflito estabelecido por uma sociedade patriarcal, aborda questões atemporais como maternidade, exclusão social, culpa, luto, transcendência, opressão machista e liberdade feminina. A versão original ganha, na adaptação recifense, a inserção de um narrador para facilitar a compreensão da história pelo público e o estabelecimento de pontes culturais com a realidade atual, e a realização conta com apoio do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, vinculada à Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife.
As apresentações serão precedidas, no dia 25, por atividades de formação destinadas a aproximar sobretudo estudantes da rede pública do universo da ópera. O ensaio geral será aberto à participação de alunos e terá roda de conversa com diretores da ópera, às 16h (antes da apresentação inaugural, às 20h). Elementos cênicos, cenografia, figurinos, iluminação, ambientação teatral e todos os aspectos envolvidos na apresentação da ópera são conduzidos por mulheres.
Intérprete de Angelica, a cantora lírica Karla Karolla também é responsável pela coordenação geral do espetáculo. “O projeto nasceu de um desejo que já vinha me acompanhando há algum tempo de realizar uma montagem de ópera que, além de levar uma grande obra do repertório lírico ao público, pudesse valorizar quem produz e faz ópera em Pernambuco, especialmente as mulheres. A obra de Giacomo Puccini é muito intensa, com uma escrita musical belíssima e uma história construída inteiramente a partir de personagens femininas”, observa. “A ideia envolveu montar a obra de Puccini e, ao mesmo tempo, colocar em evidência a presença, o trabalho e a resistência das mulheres dentro da nossa cena lírica”, complementa.
A cantora e atriz ressalta a atualidade dos temas evocados pela ópera escrita no início do século XX, e posiciona a encenação como ensejo para estimular reflexões necessárias sobre o papel da mulher na sociedade. “A própria história de ‘Suor Angelica’ contém questões que continuam muito presentes: maternidade, culpa, julgamento, abandono, relações de poder e as consequências impostas a uma mulher pelas escolhas que faz sobre a própria vida. É impressionante perceber como algumas dessas questões ainda encontram eco hoje”, diz.
A diretora cênica e responsável pela concepção, Rose Mary Martins, observa a manutenção de padrões de cerceamento ao longo do tempo. “Os mecanismos de controle é que mudaram. O foco antes estava na domesticação, na moralidade rígida, em políticas eugênicas. Hoje o controle se concentra na judicialização dos direitos reprodutivos, na pressão estética digital e, principalmente, na mercantilização do corpo. Lá no século XX se controlava a reprodução para moldar a demografia, também garantir a herança familiar. Hoje, o acesso ao aborto legal, aos métodos contraceptivos, a autonomia no parto, continuam sendo a arena de intensos debates políticos e jurídicos globais. Antes, o corpo feminino era regulado por espartilhos, códigos rígidos de vestimenta, comportamento público, hoje por meio de padrões de beleza irreais, amplificados nas redes sociais gerando pressões psicológicas e intervenções médicas”.
No palco e nos bastidores, Suor Angelica revisita o passado para ampliar um coro urgente ainda hoje.
FICHA TÉCNICA
Suor Angelica
Ópera (adaptada) de Giacomo Puccini
Realização: 2K Produções
Direção musical e regência: Hadassa Rossiter
Concepção e direção cênica: Rose Mary Martins
Direção executiva: Sebastiana Gomes
Coordenação geral: Karla Karolla
Pianista: Andréia Rocha
Preparadora corporal: Taciana Gomes
Protagonistas: Karla Karolla / Yane Ramalho
Atriz/Narração: Isadora de Alencar
SERVIÇO
Quando: 25 e 26 de setembro, sexta e sábado, às 20h / 27 de setembro, domingo, às 19h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, s/n, Santo Antônio, Recife)
Ingressos: entrada franca
Atividade extras: 25 de setembro, às 16h, ensaio geral aberto e roda de conversa com estudantes da rede pública de ensino
Foto: Daniel Marcelino.

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